Na frase Mas, para instaurar uma vida mais simples e sábia, ...
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz
da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um
sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a
tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos
cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem
falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque,
por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no
bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata,
tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo assim,
a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
Mas, para instaurar uma vida mais simples e sábia, seria
preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio
de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de
dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e
de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de
útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma
sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho
assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento!
Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, de um
número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de
nada, precisamos apenas viver - sem nome, nem número,
fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o
ribeirão.
(Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas
Mas, para instaurar uma vida mais simples e sábia, seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas...
o cronista
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A questão analisada aborda a interpretação de texto, mais especificamente a visão do cronista sobre seu próprio ofício. O trecho destacado reflete um sentimento de insatisfação ou desconforto do cronista em relação ao seu trabalho de escritor.
Alternativa Correta: B
A alternativa B é a correta porque o cronista utiliza a expressão "comércio de pequenas pilhas de palavras" para expressar uma visão depreciativa de seu próprio ofício. Essa escolha de palavras sugere que ele vê seu trabalho como algo trivial e sem substância real, refletindo um desejo de algo mais concreto e significativo.
Análise das Alternativas Incorretas:
A - A opção A está incorreta. Embora o cronista repita a expressão "dizer coisas", não é para ressaltar a importância de seu trabalho, mas sim para evidenciar a repetição e a futilidade dessas palavras. Ele não está revelando verdades profundas, mas sim manifestando um certo cansaço com a superficialidade do discurso.
C - A opção C é equivocada porque o trecho não apresenta como consequência de instaurar uma vida mais simples o fato de ganhar a vida de outro jeito. Na verdade, o cronista está refletindo sobre como seria necessário mudar para alcançar essa simplicidade, não como uma consequência direta.
D - A opção D está incorreta. O uso da expressão "não assim" não aponta uma restrição, mas uma comparação com o modo de vida atual, que ele considera insatisfatório e complexo, em contraste com a vida mais simples que almeja.
E - A opção E é igualmente incorreta. A expressão "ofício absurdo e vão" não é usada para menosprezar os escritores que se recusam a profissionalizar-se, mas sim para criticar a superficialidade do próprio trabalho como escritor no contexto em que ele se encontra.
Estratégias para Interpretação:
Para responder corretamente questões de interpretação de texto, é crucial identificar o tom e a intenção do autor. Neste caso, palavras como "absurdo" e "vão" são indicativas de insatisfação. Atente-se a repetições e metáforas que possam revelar um sentimento ou crítica subjacente. Isso ajuda a construir uma compreensão mais profunda do texto.
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Gabarito: B
Vemos que o cronista tem uma visão depreciativa de seu próprio ofício ao chamá-lo de ofício absurdo e vão e quando o resume a apenas um comércio de pequenas pilhas de palavras.
a) Errado . Grande parte do trecho apresenta defeitos e adjetivações negativas do trabalho de escritor
B) Correto . Não só nessa expressão , bem como na '' ofício absurdo e vão de dizer coisas ''
C) Errado . A consequência , temporalmente , é uma ação que ocorre posteriormente e não é o caso desta
D) Errado .
E) Errado . Em momento nenhum do texto o autor cita diferença entre autores profissionais e amadores .
A) Incorreta. A repetição "dizer coisas, dizer coisas..." acompanhada das reticências e do adjetivo "vão" sugere exaustão e vacuidade, não importância. O cronista não sente que revela verdades profundas, mas sim que produz algo repetitivo e sem substância concreta.
B) Correta. A expressão "comércio de pequenas pilhas de palavras" desvaloriza o trabalho intelectual ao tratá-lo como uma mercadoria fragmentada e acumulada sem utilidade real. Ao usar termos como "absurdo" e "vão", o cronista deixa claro que vê seu ofício de forma depreciativa quando comparado à solidez do trabalho braçal.
C) Incorreta. Há um erro de relação lógica. No texto, "ganhar a vida de outro jeito" não é a consequência, mas sim a condição necessária (o meio) para que se possa instaurar uma vida mais simples e sábia.
D) Incorreta. A expressão "não assim" não indica uma restrição, mas uma rejeição ao modo de vida atual. Ela serve para reforçar a oposição entre o que ele faz hoje e o que ele gostaria de fazer.
E) Incorreta. O cronista não está menosprezando outros escritores, muito menos aqueles que não se profissionalizam. O "menosprezo" é direcionado ao próprio ofício da escrita profissionalizada e rotineira, que ele mesmo exerce.
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