De acordo com o texto, o que permite a percepção da felicid...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3293579 Português

Leia o texto a seguir para responder a qunestão.


    Felicidade é uma vibração intensa, um momento em que eu sinto a vida em plenitude dentro de mim, e quero que aquilo se eternize. Felicidade é a capacidade de você ser inundado por uma alegria imensa por aquele instante, por aquela situação. Aliás, felicidade não é um estado contínuo, felicidade é uma ocorrência eventual. A felicidade é sempre episódica. Você sentir a vida vibrando, seja num abraço, seja na realização de uma obra, seja numa situação, por exemplo, em que seu time vence, seja porque algo que você fez deu certo, seja porque você ouviu algo que você queria ouvir. É claro que aquilo não tem perenidade, aliás, a felicidade se marcada pela perenidade seria impossível. Afinal de contas nós só temos a noção de felicidade pela carência.

    Se eu tivesse a felicidade como algo contínuo, eu não a perceberia. Nós só sentimos a felicidade porque ela não é contínua. Isto é, ela não é o que acontece o tempo todo, de todos os modos. A ideia de felicidade sozinha ela teria que ter uma questão anterior: se é possível viver sozinho. Que como a felicidade pelo óbvio só acontece com alguém que viu ou está e viver é viver com outros e outras, como não é possível viver sozinho? A possibilidade da felicidade isolada, solitária é nenhuma. Pra que eu possa ser feliz sozinho eu teria que ser capaz de viver sozinho. Mesmo a literatura, como Robson Crusoé, por exemplo, que lida com um homem que está só, mas ele está só depois de ter vivido com outros. Ele trás as outras pessoas na sua memória, na sua história, no seu desejo, no seu horizonte. Não há, não há história de ser humano em que ele tenha sido sozinho da geração até o término. Se assim não há, não há possibilidade de se ser feliz sozinho.

    Nos últimos 50 anos do século XX, nós tivemos mais desenvolvimento tecnológico do que em toda história anterior da humanidade. Todos os 39.950 anos anteriores, desde que o homo sapiens era sapiens, sapiens sapiens na classificação científica, foram menos do que os 50 anos finais do século XX. Seria a redenção da humanidade. Uma questão: as questões centrais permaneceram. Quem sou eu?, pra que tudo isso?, porque eu não sou feliz apenas quando possuo objeto?, porque o mal existe?, porque que eu não tenho paz em meio a tanta convivência? Nesta hora, não só a religiosidade, ela sofreu um revival, como a filosofia passou, de novo, a ser interessante. E aí claro, a filosofia como autoajuda, a filosofia como autoconhecimento, a filosofia como auto capacidade, a filosofia como prática sistemática. E de repente a gente tem no final do século XX, em vários lugares do mundo e no Brasil também, casas pra estudar filosofia; procura de cursos de filosofia. Nós somos o único animal que é mortal. Todos os outros animais são imortais. Embora todos morram, nós somos o único que além de morrer, sabe que vai morrer. Teu cachorro tá dormindo sossegado a essa hora. Teu gato tá tranquilo. Você e eu sabemos que vamos morrer.

    Desse ponto de vista, não é a morte que me importa, porque ela é um fato. O que me importa é o que eu faço da minha vida enquanto minha morte não acontece, pra que essa vida não seja banal, superficial, fútil, pequena. Nesta hora, eu preciso ser capaz de fazer falta. No dia que eu me for, e eu me vou, quero fazer falta. Fazer falta não significa ser famoso, significa ser importante. Há uma diferença entre ser famoso e importante. Muita gente não é famosa e é absolutamente importante. Importar; quando alguém me leva pra dentro, importa. Ele me porta pra dentro, ele me carrega. Eu quero ser importante. Por isso, pra ser importante, eu preciso não ter uma vida que seja pequena. E uma vida se torna pequena quando ela é uma vida que é apoiada só em si mesmo, fechada em si. Eu preciso transbordar, ir além da minha borda, preciso me comunicar, preciso me juntar, preciso me repartir. Nesta hora, minha vida que, sem dúvida, ela é curta, eu desejo que ela não seja pequena. (Cortella, Mário Sérgio.


Disponível em: https://www.pensador.com/mario_sergio_cortella_textos/) 

De acordo com o texto, o que permite a percepção da felicidade?
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: Interpretação de Texto e Coerência Textual.

A questão exige do candidato a habilidade de interpretar ideias centrais de um texto reflexivo, identificando, pela leitura atenta, o que o autor entende como condição para percebermos a felicidade.

Justificativa para a alternativa correta (D):
O texto de Cortella afirma: “nós só temos a noção de felicidade pela carência” e reforça que felicidade não é contínua, é episódica. Pela norma-padrão e pela teoria semântica da coerência textual (Koch; Antunes), o leitor deve relacionar essa informação explícita à alternativa correta. Ou seja, entendemos o que é felicidade porque ela é rara, não constante; sentimos sua presença pela falta que ela normalmente faz.

Estratégia de resolução: Identifique sempre palavras-chave e relações de causa e explicação no texto (“só temos noção de felicidade pela carência”, “se fosse contínua, não perceberíamos”). Essas indicações são determinantes na escolha da alternativa correta.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) A ausência de momentos tristes: O texto não afirma que felicidade decorre da ausência de tristeza, mas sim da ausência/sensação da própria felicidade como algo eventual.
  • B) A comparação com experiências passadas: Não há, no texto, referência à comparação temporal para perceber ou atribuir valor à felicidade.
  • C) A constante busca por novos prazeres: A busca ativa por prazeres não é indicada pelo autor como caminho para perceber felicidade; ao contrário, o texto sugere um reconhecimento associando felicidade à sua não-permanência.

Orientação de leitura: Perceba que muitas alternativas buscam testar seu senso lógico e atenção ao texto, ao trocar termos-chave ou sugerir relações não existentes. Por isso, leia o texto base sempre com atenção aos argumentos centrais e exemplos que são apresentados para fundamentar a tese do autor.

Regra essencial: Segundo Bechara (Gramática Escolar): “O sentido de um enunciado depende da articulação interna de suas ideias, daí a importância de entender a progressão argumentativa do texto”.

Assim, a alternativa D é a correta: A carência e a falta de felicidade contínua permitem a sua percepção, segundo a lógica do texto.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo