Em seu sonho de simplicidade, o cronista Rubem Braga idealiz...

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Q31108 Português
Um sonho de simplicidade

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz
da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um
sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a
tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos
cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem
falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque,
por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no
bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata,
tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo assim,
a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.

Mas, para instaurar uma vida mais simples e sábia, seria
preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio
de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de
dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e
de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de
útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma
sossegada e limpa.

Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho
assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento!
Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, de um
número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de
nada, precisamos apenas viver - sem nome, nem número,
fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o
ribeirão.

(Rubem Braga, 200 crônicas escolhidas
Em seu sonho de simplicidade, o cronista Rubem Braga idealiza sobretudo
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a identificação do “sonho de simplicidade” como oposição entre a vida urbana artificial e uma vida simples, concreta e natural, como explicitam os trechos “Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto...” e “precisamos apenas viver - sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão”; por isso, a alternativa correta é a que sintetiza essa relação mais direta e vital do homem com os demais elementos da natureza.

Tema central: vida simples e natural
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra ao deslocar o tema para uma suposta depuração do estilo de escrever. O texto não formula crítica a “excessivo refinamento” estilístico. Ao contrário, o narrador problematiza o próprio ofício como “esse comércio de pequenas pilhas de palavras” e o contrapõe a atividades concretas. O foco é existencial e semântico: oposição entre abstração urbana e vida concreta, não avaliação técnica do estilo.
B
Errada
A alternativa inverte o valor do que o texto diz. As necessidades criadas na rotina aparecem como alvo de recusa crítica, como em “São uma necessidade que inventei”, e não como objeto de idealização. O sonho de simplicidade consiste justamente em se afastar dessas demandas artificiais.
C
Certa
A alternativa C está correta porque condensa com fidelidade o núcleo do texto: o cronista idealiza uma existência menos artificial, menos mediada pelas exigências urbanas e mais ligada ao concreto e à natureza. Essa leitura é diretamente sustentada pelos trechos em que ele deseja “tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra” e viver “como os bois, as mangueiras e o ribeirão”, imagens que definem o conteúdo positivo do sonho de simplicidade.
D
Errada
A alternativa atribui ao texto um projeto de aperfeiçoamento espiritual por reflexão disciplinada que não está formulado. Embora apareça a expressão “alma sossegada e limpa”, esse efeito é associado ao trabalho “útil e concreto”, não a reflexões constantes e metódicas. Há mudança indevida do sentido do texto: do concreto e natural para o espiritualismo abstrato.
E
Errada
A alternativa isola indevidamente um elemento da enumeração inicial. A “voz de mulher na penumbra” não é idealizada como paixão ingênua; ela integra a série de hábitos urbanos questionados pelo narrador, ao lado de uísque, bar, brilho social e intrigas. Trata-se de leitura parcial e descontextualizada de um item que tem valor negativo no conjunto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre elementos apenas mencionados no início da crônica e o que é efetivamente idealizado: cigarros, uísque, bar, gravata e “voz de mulher na penumbra” aparecem como marcas da artificialidade urbana, enquanto o sonho de simplicidade se define nos trechos ligados ao trabalho concreto e à natureza.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a pergunta trouxer “sobretudo”, procure o núcleo predominante do texto, não imagens acessórias ou pontuais.
  • Identifique as oposições semânticas centrais do texto; aqui, urbano/artificial se opõe a natural/concreto.
  • Separe o que o narrador critica do que ele idealiza: menção textual não significa valorização.
  • Use os campos lexicais decisivos para validar a inferência; neste texto, rio, lenha, terra, bois, mangueiras e ribeirão orientam a resposta.

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Comentários

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É o que se depreende da leitura do último período do texto:Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver - sem nome, nem número,fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.

Seria preciso fazer algo de sólido e
de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de
útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma
sossegada e limpa. LETRA "C"

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