Catar Feijão Catar feijão se limita com escrever: joga-se ...
Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
João Cabral de Melo Neto MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989.
Analisando o poema catar feijão, de João Cabral de Melo Neto ,compreendemos que :
Gabarito comentado
Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores
Tema central: Interpretação de Texto – Metalinguagem
O poema “Catar Feijão”, de João Cabral de Melo Neto, é exemplar por refletir sobre o próprio fazer poético. Ou seja, trata-se de um texto metalinguístico: ele utiliza a linguagem para analisar a própria linguagem poética, fazendo uma comparação (“catar feijão se limita com escrever”) entre o processo de seleção dos grãos e o de escolha das palavras ao escrever.
Alternativa correta: B
A alternativa B está correta porque identifica o traço metalinguístico do poema. O poeta usa a construção do poema (escrever) como tema do próprio poema, mostrando o processo artesanal da escrita e a busca criteriosa por cada palavra, assim como se escolhe grão por grão de feijão. Segundo Bechara e Cunha & Cintra, a metalinguagem ocorre quando “a língua é usada para falar de si mesma”. Essa reflexão sobre o fazer literário é central no texto.
Análise das alternativas incorretas:
A – Incorreta porque foca em uma suposta contraste entre catar feijão e escrever, quando o poema faz uma analogia, mostrando similaridades, não oposições.
C – Incorreta. Fala em “regionalismo crítico” e “antíteses”, desviando do principal: o poema não se detém no regionalismo, e sim no processo de criação (metalinguagem).
D – Errada por interpretar o texto como crítica social suavizada (“ameniza mazelas”), quando o objetivo do poema é explicitar o artesanal da escrita, não tratar de um drama social.
E – Em desacordo com o poema, que não traz lirismo ou sonho, mas sim contenção e precisão racional na escolha das palavras, característica da poesia de João Cabral.
Dica de prova: Quando o texto reflete sobre o próprio processo de criação, desconfie de termos como metalinguagem ou metapoema. Em concursos, identificar o tema central e o movimento reflexivo do autor é fundamental.
Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!
Clique para visualizar este gabarito
Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo