Rios sem discurso- João Cabral de Melo Neto. Quando um rio ...

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Q1393492 Português

Rios sem discurso- João Cabral de Melo Neto.

Quando um rio corta, corta-se de vez

o discurso-rio de água que ele fazia;

a água se quebra em pedaços,

poços de água, em água paralítica.

Em situação de poço, a água equivale

a uma palavra em situação dicionária:

isolada, estanque no poço dela mesma,

e porque assim estanque, estancada;

e mais: porque assim estancada, muda,

e muda porque com nenhuma comunica,

porque cortou-se a sintaxe desse rio

o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,

chega raramente a se reatar de vez;

um rio precisa de muito fio de água

para refazer o fio antigo que o fez.

Salvo a grandiloquência de uma cheia

lhe impondo interina outra linguagem,

um rio precisa de muita água em fios

para que todos os poços se enfrasem:

se reatando, de um para outro poço,

em frases curtas, então frase e frase,

até a sentença-rio do discurso único

em que se tem voz a seca ele combate.

MELO NETO, João Cabral de. Antologia Poética. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1989


Sobre o poema Rios sem discurso de João Cabral de Melo Neto, podemos inferir que:

Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de Texto – Metáfora, Metalinguagem e Coesão/Coerência

O poema de João Cabral de Melo Neto estabelece uma analogia metafórica entre o fluxo de um rio e a construção do discurso na língua: assim como os diferentes “fios de água” ao se unirem formam o rio, as palavras e frases articuladas formam o texto discursivo.

Justificativa da alternativa B (Correta):

A alternativa B se apoia justamente nessa metáfora central. O rio apenas “engrossa” e flui quando se une de vários fios de água, tal como o discurso se constrói com a reunião coesa de palavras e frases. Em norma-padrão, essa interpretação está de acordo com a análise de Bechara sobre figuras de linguagem e metalinguagem: o texto fala da própria linguagem por metáfora, mostrando que o sentido pleno das palavras se manifesta apenas quando interligadas no discurso.

Análise das alternativas incorretas:

A: Equivoca-se ao interpretar os sentidos de “cortar”. O poema enfatiza o interromper do fluxo, não “secar” ou “deixar de correr”.

C: Embora observe corretamente a analogia entre fluxo e linguagem, não menciona o aspecto construtivo e progressivo do discurso, núcleo do poema.

D: A menção ao significado “conotativo” para palavras isoladas está equivocada: uma palavra isolada no dicionário tem sentido denotativo, não conotativo.

E: Baseia-se em origem etimológica, ampliando o sentido de “discurso”, o que foge completamente da compreensão do poema.

Estratégia para interpretar este tipo de questão: Busque sempre o fio condutor e relações de causa e consequência. O poema usa metáforas e fala sobre o uso da linguagem (metalinguagem). Fique atento às palavras-chave (fluxo, unir, construir, discurso, frases, fios de água) e desconfie de explicações que desviem do foco central estabelecido pelo poeta.

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