Nenhum editor de texto percebeu que ela era boa, até eu esc...

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Q111498 Português
Pergunta: Por que o senhor acha que Cem anos de solidão fez
tanto sucesso?
García Marquez: Não tenho a menor ideia, sou um péssimo
crítico de meus próprios trabalhos.

Pergunta: Por que acha que a fama é destrutiva para um
escritor?
García Marquez: Primeiro, porque ela invade sua vida particular.
Acaba com o tempo que você passa com amigos e com o
tempo em que você pode trabalhar. Tende a isolar você do
mundo real.

Pergunta: O senhor já pensou em fazer filme?
García Marquez: Houve uma ocasião em que desejava ser
diretor de cinema. Sentia que o cinema era um meio de co-
municação que não tinha limites, no qual tudo era possível. Mas
há uma grande limitação no cinema pelo fato de que ele é uma
arte industrial. É muito difícil expressar no cinema o que você
realmente quer dizer. Entre ter uma companhia cinematográfica
e um jornal, eu escolheria um jornal.

[...]

Pergunta: Ouvi falar de uma famosa entrevista com um mari-
nheiro que havia sofrido um naufrágio.
García Marquez: Não foi com perguntas e respostas. O mari-
nheiro apenas contou suas aventuras e eu as reescrevi, ten-
tando usar as palavras dele, na primeira pessoa, como se fosse
ele quem estivesse escrevendo. Quando o trabalho foi publi-
cado, na forma de uma série de reportagens em um jornal, uma
parte por dia, durante duas semanas, foi assinado pelo ma-
rinheiro e não por mim. Só vinte anos depois a reportagem foi
publicada em livro e as pessoas descobriram que havia sido
escrita por mim. Nenhum editor de texto percebeu que ela era
boa, até eu escrever Cem anos de solidão.


(Adaptado de Peter M. Stone. Os escritores, 2: as históricas
entrevistas da Paris Review
. Trad. Cecília C. Bartalotti. São
Paulo: Cia. das Letras, 1989, p. 326 e pp.340-341)

Nenhum editor de texto percebeu que ela era boa, até eu escrever Cem anos de solidão.

Com a afirmação acima, García Marquez
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O ponto decisivo está em: "Só vinte anos depois a reportagem foi publicada em livro e as pessoas descobriram que havia sido escrita por mim. Nenhum editor de texto percebeu que ela era boa, até eu escrever Cem anos de solidão." O conectivo "até" marca um antes sem reconhecimento e um depois em que a qualidade passa a ser percebida após a consagração do autor; daí se infere, com apoio textual, a crítica ao critério editorial que valoriza a obra em função da notoriedade do escritor.

Tema central: reconhecimento pela fama
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa introduz dois elementos que o texto não traz: "editoras em geral" e "obras da juventude". O trecho fala do reconhecimento tardio da qualidade de uma reportagem, não de desinteresse editorial por textos juvenis. Há extrapolação do referente textual e mudança do foco semântico.
B
Certa
A alternativa B traduz corretamente o sentido da fala porque o enunciador sugere que a reportagem já era boa antes, mas não foi reconhecida enquanto seu nome ainda não tinha o peso adquirido com Cem anos de solidão. O alvo da observação não é a qualidade do texto em si, mas o mecanismo de recepção editorial: a valorização aparece condicionada à fama do autor.
C
Errada
O texto não trata de crítica literária nem de desconforto com opiniões sobre suas obras. A referência é a "editor de texto" e ao fato de não terem percebido que a reportagem era boa. A alternativa troca indevidamente o referente discursivo: editores não são a crítica literária.
D
Errada
Não há no trecho marca de constrangimento pela publicação da reportagem. Ao contrário, a fala afirma a qualidade do texto e destaca que ela não foi reconhecida na época. O sentimento atribuído pela alternativa não tem apoio lexical nem discursivo.
E
Errada
O excerto não estabelece hierarquia entre romance e texto jornalístico. O fato de a notoriedade ter vindo com um romance não autoriza concluir que ele esteja ironizando uma suposta superioridade de romances no mercado editorial. A oposição entre gêneros foi criada pela alternativa, não pelo texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre um comentário sobre reconhecimento condicionado à fama do autor e outras leituras indevidas: crítica literária, constrangimento pessoal ou hierarquia entre gêneros textuais.
Dica para questões semelhantes
  • Observe conectivos temporais como "até": eles podem revelar a mudança decisiva de sentido entre um antes e um depois.
  • Diferencie o referente exato mencionado no texto: aqui, "editor de texto" não equivale a "crítica literária".
  • Não atribua sentimento pessoal sem marca textual; primeiro verifique se o trecho realmente expressa afeto ou se apenas descreve um mecanismo de recepção.
  • Quando a alternativa generaliza um caso particular, confira se a generalização preserva o núcleo do sentido do texto e não acrescenta tema novo.

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Comentários

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Certamente a letra B.

Gabriel Garcia Marquez demonstra nessa expressão de que textos são avaliados pela qualidade não em seu conteúdo, mas por quem escreve. A idéia torpe de que a fama precede qualquer coisa, até a essência da obra em si.

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