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Ano: 2013 Banca: TJ-PR Órgão: TJ-PR Prova: TJ-PR - 2013 - TJ-PR - Médico |
Q782137 Português

Será a felicidade necessária? 

Felicidade é uma palavra pesada. Alegria é leve, mas felicidade é pesada. Diante da pergunta ' 'Você é feliz?' ', dois fardos são lançados às costas do inquirido. O primeiro é procurar uma definição para felicidade, o que equivale a rastrear uma escala que pode ir da simples satisfação de gozar de boa saúde até a conquista da bem-aventurança. O segundo é examinar-se, em busca de uma resposta. Nesse processo, depara-se com armadilhas. Caso se tenha ganhado um aumento no emprego no dia anterior, o mundo parecerá belo e justo; caso se esteja com dor de dente, parecerá feio e perverso. Mas a dor de dente vai passar, assim como a euforia pelo aumento de salário, e se há algo imprescindível, na difícil conceituação de felicidade, é o caráter de permanência. Uma resposta consequente exige colocar na balança a experiência passada, o estado presente e a expectativa futura. Dá trabalho, e a conclusão pode não ser clara.

Os pais de hoje costumam dizer que importante é que os filhos sejam felizes. É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960. E irrelevante que entrem na faculdade, que ganhem muito ou pouco dinheiro, que sejam bem-sucedidos na profissão. O que espero, eis a resposta correta, é que sejam felizes. Ora, felicidade é coisa grandiosa. É esperar, no mínimo, que o filho sinta prazer nas pequenas coisas da vida. Se não for suficiente, que consiga cumprir todos os desejos e ambições que venha a abrigar. Se ainda for pouco, que atinja o enlevo místico dos santos. Não dá para preencher caderno de encargos mais cruel para a pobre criança. ' 'É a felicidade necessária?' ' é a chamada de capa da última revista New Yorker (22 de março) para um artigo que, assinado por Elizabeth Kolbert, analisa livros recentes sobre o tema. No caso, a ênfase está nas pesquisas sobre felicidade (ou sobre ' 'satisfação' ', como mais modestamente às vezes são chamadas) e no impacto que exercem, ou deveriam exercer, nas políticas públicas. Um dos livros analisados, de autoria do ex-presidente de Harvard Derek Bok (The Politics of Happiness: What Government Can Learn from the New Research on Well-Being), constata que nos últimos 35 anos o PIB per capita dos americanos aumentou de 17000 dólares para 27 000, o tamanho médio das casas cresceu 50% e as famílias que possuem computador saltaram de zero para 70% do total. No entanto, a porcentagem dos que se consideram felizes não se moveu. Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário: se o crescimento econômico não contribui para aumentar a felicidade, ' 'por que trabalhar tanto, arriscando desastres ambientais, para continuar dobrando e redobrando o PIB?' '.

Outro livro, de autoria de Carol Graham, da Universidade de Maryland (Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires), informa que os nigerianos, com seus 1400 dólares de PIB per capita, atribuem-se grau de felicidade equivalente ao dos japoneses, com PIB per capita 25 vezes maior, e que os habitantes de Bangladesh se consideram duas vezes mais felizes que os da Rússia, quatro vezes mais ricos. Surpresa das surpresas, os afegãos atribuem-se bom nível de felicidade, e a felicidade é maior nas áreas dominadas pelo Talibã. Os dois livros vão na mesma direção das conclusões de um relatório, também citado no artigo da New Yorker, preparado para o governo francês por dois detentores do Nobel de Economia, Amartya Sen e Joseph Stiglitz. Como exemplo de que PIB e felicidade não caminham juntos, eles evocam os congestionamentos de trânsito, ' 'que podem aumentar o PIB, em decorrência do aumento do uso da gasolina, mas não a qualidade de vida' '. 

Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade, não fosse que ambicionam influir na formulação das políticas públicas. O propósito é convidar os governantes a afinar seu foco, se têm em vista o bem-estar dos governados (e podem eles ter em vista algo mais relevante?). Derek Bok, o autor do primeiro dos livros, aconselha ao governo americano programas como estender o alcance do seguro-desemprego (as pesquisas apontam a perda de emprego como mais causadora de infelicidade do que o divórcio), facilitar o acesso a medicamentos contra a dor e a tratamentos da depressão e proporcionar atividades esportivas para as crianças. Bok desce ao mesmo nível terra a terra da mãe que trocasse o grandioso desejo de felicidade pelo de uma boa faculdade e um bom salário para o filho.

(Roberto Pompeu de Toledo. Veja, ed. 2157, 24 mar. 2010)

Assinale a alternativa que apresenta uma expressão que poderia substituir a empregada no texto, sem prejuízo de forma ou de sentido
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A decisão depende da equivalência semântica contextual da locução no trecho "É uma tendência que se impôs ao influxo das teses libertárias dos anos 1960.", sem prejuízo da construção do enunciado. Nesse contexto, a expressão proposta no item B preserva o valor de influência/efeito de que a questão trata, ao contrário das demais alternativas.

Tema central: substituição vocabular por equivalência semântica
Análise das alternativas
A
Errada
No trecho "se há algo imprescindível (...) é o caráter de permanência", "imprescindível" significa indispensável, essencial. "Imprescritível" tem outro sentido: aquilo que não prescreve. A troca não é válida porque altera o significado lexical da palavra original. A banca explora aqui a semelhança gráfica e sonora entre termos semanticamente distintos.
B
Certa
A alternativa B está correta porque, no trecho citado, "ao influxo" tem valor de "sob influência" ou "por efeito de". A substituição por "sob o efeito" mantém exatamente essa ideia de que a tendência se impôs em decorrência da ação das teses libertárias dos anos 1960. Assim, há preservação do sentido contextual e da naturalidade da construção, que é o critério exigido pela questão.
C
Errada
Em "Conclusão do autor, de lógica irrefutável e alcance revolucionário", "irrefutável" significa incontestável, impossível de refutar. "Inconciliável" significa que não pode ser conciliado ou harmonizado. Os sentidos não coincidem, portanto a substituição rompe a equivalência semântica exigida.
D
Errada
No trecho "Embora embaladas com números e linguagem científica, tais conclusões apenas repisariam o pedestre conceito de que dinheiro não traz felicidade", "embaladas" tem sentido figurado de revestidas, apresentadas, envoltas por aparência de cientificidade. "Confundidas" muda essa relação semântica, porque introduz ideia de confusão, e não de revestimento discursivo. Por isso, a troca é infiel ao contexto.
Pegadinha da questão
A questão mistura duas armadilhas reais: palavras parecidas na forma, mas não no sentido, como "imprescindível" e "imprescritível", e substituições que parecem próximas, mas não reproduzem o valor contextual exato, como "embaladas" e "confundidas". O comando exigia preservar ao mesmo tempo sentido e forma de uso.
Dica para questões semelhantes
  • Confirme o sentido da palavra dentro do trecho, não apenas por semelhança com outra palavra próxima na forma.
  • Em substituição vocabular, a troca só serve se mantiver o valor semântico contextual e continuar funcionando naturalmente na frase.
  • Quando houver uso figurado, elimine opções que tragam sentido literal ou relação semântica diferente da construída no texto.

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Gabarito B

a) imprescindível: indispensável
imprescritível: que não prescreve/não se sobrepõe

b) ao influxo=sob o efeito [Gabarito]

c) irrefutável: irrecusável
inconciliável: que não se pode concilia

d) embaladas e confundidadas dispensa comentários.

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