Assinale a alternativa INCORRETA.

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Q4109934 Português
    [...] Como comentei na introdução, é comum que alguns autores, embora neguem o uso do “eu”, permitam, entretanto, o uso do “nós”, isto é, o emprego gramatical da primeira pessoa do plural. Devo dizer que acho a opção ainda mais estranha e curiosa do que a proibição anterior.
    Penso que tais autores, se sentindo sufocados pela impessoalidade da terceira pessoa gramatical, porém, sem querer ceder à pessoalidade da primeira pessoa do singular, acabem tentando encontrar um meio-termo no “nós”, o que, a meu ver, é mero paliativo. É que, à exceção dos trabalhos elaborados em coautoria, soa muito estranho ler um autor se referindo a si como “nós”. Soa como uma esquizofrenia.
    Para tentar justificar esse paliativo, já vi seus defensores argumentando que o uso da primeira pessoa do plural se justifica uma vez que o autor se apoia em diversas pessoas e em suas obras para poder desenvolver um trabalho científico. Assim, tentam fazer crer que o uso do “nós” é uma espécie de reconhecimento à colaboração dos demais autores que serviram de fonte às ideias do autor da pesquisa.
     Ora, com todo respeito, trata-se de uma falácia. O argumento da suposta humildade do pesquisador revela-se, na verdade, uma presunção temerosa, que, penso, deve ser evitada. Nada lhe garante que os autores que lhe serviram de fonte de pesquisa chegariam às mesmas conclusões que as suas, ou que foram corretamente interpretados em suas ideias. Em verdade, não cabe ao pesquisador declarar a vontade de suas fontes, apenas interpretá-las com sua própria subjetividade que lhe é peculiar.
    Além de gerar um ruído na comunicação, entendo que o uso da primeira pessoa do plural por um indivíduo que elabora sozinho um texto acadêmico representa uma afronta à lógica, já que nada justifica se referir a si como “nós”, quando se está completamente sozinho no ato de escrever. Sendo o caso de ser uma pesquisa que teve ajudantes ou colaboradores, uma forma de valorizar sua participação é torná-los coautores ou mencioná-los diretamente no trabalho. [...]


CERSOSIMO, Samuel Oliveira. O “eu” no trabalho acadêmico: considerações sobre a proibição ao uso da primeira pessoa do singular nos textos científicos. Disponível em: https://www.academia.edu/. 
Assinale a alternativa INCORRETA.
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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério é confrontar a tese com as marcas enunciativas: “Além de gerar um ruído na comunicação, entendo que o uso da primeira pessoa do plural por um indivíduo que elabora sozinho um texto acadêmico representa uma afronta à lógica, já que nada justifica se referir a si como “nós”, quando se está completamente sozinho no ato de escrever.” O autor usa “acho”, “Penso” e “entendo”; essa correspondência refuta A, tornando-a a alternativa incorreta.

Tema central: Coerência entre tese e pessoalidade
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A atribui ao autor a rejeição do “eu”, mas o texto apresenta essa rejeição como posição de outros autores, criticada pelo enunciador.
B
Errada
Não deve ser assinalada, pois apresenta duas classificações corretas. “Para tentar justificar esse paliativo” indica a finalidade da argumentação dos defensores do plural. “Como comentei na introdução” tem valor conformativo, equivalente, nesse contexto, a “conforme comentei na introdução”.
C
Errada
Não deve ser assinalada, pois a paráfrase preserva a comparação. No primeiro parágrafo, “a opção” retoma a permissão de empregar “nós”, e “a proibição anterior” retoma a proibição de empregar “eu”. A alternativa explicita esses referentes sem alterar o núcleo do julgamento do autor.
D
Errada
Não deve ser assinalada, pois a substituição preserva a orientação argumentativa do trecho. No contexto, “uma falácia” desqualifica como enganosa a justificativa de que o plural reconheceria a colaboração das fontes. “Um engodo” mantém essa avaliação, sem exigir sinonímia perfeita entre as palavras em todos os contextos nem comprovar intenção deliberada de enganar.
Pegadinha da questão
O comando pede a afirmação incorreta. A alternativa A confunde a posição de outros autores, que rejeitam o “eu”, com a posição do enunciador, que critica essa rejeição e o emprego de “nós” por um autor individual.
Dica para questões semelhantes
  • Separe a tese do enunciador das posições alheias que ele apresenta para refutar; depois confronte sua tese com as marcas de pessoa empregadas.
  • Antes de avaliar uma paráfrase, recupere os referentes de expressões como “a opção” e “a proibição anterior” e confira se a relação comparativa foi preservada.
  • Avalie substituições lexicais pelo sentido e pela orientação argumentativa no contexto, sem exigir equivalência absoluta entre as palavras.

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