De acordo com a autora, a "pobreza" em si mesma é:

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3294181 Português
Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou. Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.

Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.

Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.

Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.

É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.

Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.

Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.

A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.

(Pertencer, Clarice Lispector)
De acordo com a autora, a "pobreza" em si mesma é:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Interpretação de texto e semântica. A questão avalia a compreensão do sentido empregado pela autora para o termo “pobreza”, exigindo do candidato a habilidade de captar o significado para além do literal, conforme preconiza a norma-padrão.

Na resolução de questões desse tipo, o aluno deve identificar palavras-chave e correlacioná-las ao contexto. No texto, Clarice Lispector afirma: “Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.” O termo destacado evidencia que a “pobreza” não é material, mas sim uma sensação existencial de insuficiência.

De acordo com Maria Helena de Moura Neves (Semântica: Estudos sobre Significado), o significado das palavras em textos literários frequentemente se constrói em camadas implícitas e exige atenção do leitor aos usos não convencionais. O aluno, então, deve buscar no texto indícios do sentido adotado pelo autor, analisando a coesão e a progressão temática.

Justificativa da alternativa correta (B):

A alternativa B) Apenas ter um corpo e uma alma é correta porque reproduz exatamente o que o texto expressa sobre pobreza: sentir-se incompleto apenas com o corpo e a alma, evidenciando uma carência afetiva/existencial. Não há, no trecho, referência à ausência de bens, pessoas ou reconhecimento social – há, sim, a ideia de que isso não basta para experimentar pertencimento.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Refere-se à pobreza material, que não é o foco do texto.
  • C) Aponta para ausência de vínculos familiares ou amizades; o texto não pela falta desses, mas sim pelo sentimento de não pertencer.
  • D) Relaciona pobreza à ausência de reconhecimento social, o que não é mencionado ou sugerido pela autora.

Estratégia para evitar erro: Atenção ao contexto e ao sentido figurado. Muitas questões de interpretação em concursos usam palavras com múltiplos sentidos; busque sempre o que está explícito ou implicitamente justificado no texto.

Lembre-se: Ler atentamente e correlacionar ideias centrais é essencial para não cair em pegadinhas!

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Segue passagem no texto.

Tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo