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Q2045199 Português
Passagem pela adolescência

“Filho criado, trabalho redobrado.” Esse conhecido ditado popular ganha sentido quando chega à adolescência. Nessa fase, o filho já não precisa dos cuidados que os pais dedicam à criança, tão dependente. Mas, por outro lado, o que ele ganha de liberdade para viver a própria vida resulta em diversas e sérias preocupações aos pais. [...] Se a vida com os filhos adolescentes, que alguns teimam em considerar um fato aborrecedor, é complexa e delicada, a vida deles também o é. Na verdade, o fenômeno da adolescência, principalmente no mundo contemporâneo, é bem mais complicado de ser vivido pelos próprios jovens do que por seus pais. Vejamos dois motivos importantes.
Em primeiro lugar, deixar de ser criança é se defrontar com inúmeros problemas da vida que, antes, pareciam não existir: eles permaneciam camuflados ou ignorados porque eram da responsabilidade só dos pais. Hoje, esse quadro é mais agudo ainda, já que muitos pais escolheram tutelar integralmente a vida dos filhos por muito mais tempo. Quando o filho, ainda na infância, enfrenta dissabores na convivência com colegas ou pena para construir relações na escola, quando se afasta das dificuldades que surgem na vida escolar – sua primeira e exclusiva responsabilidade –, quando se envolve em conflitos, comete erros, não dá conta do recado etc., os pais logo se colocam em cena. Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a ideia de que eles não existem por muito mais tempo. É bom lembrar que a escola – no ciclo fundamental – deveria ser a primeira grande batalha da vida que o filho teria de enfrentar sozinho, apenas com seus recursos, como experiência de aprender a se conhecer, a viver em comunidade e a usar seu potencial com disciplina para dar conta de dar os passos com suas próprias pernas.
Em segundo lugar, o contexto sociocultural globalizado atual, com ideais como consumo, felicidade e juventude eterna, por exemplo, compromete de largada o processo de amadurecimento típico da adolescência, que exige certa dose de solidão para a estruturação de tantas vivências e, principalmente, interlocução. E com quem os adolescentes contam para conversar? Eles precisam, nessa época de passagem para a vida adulta, de pessoas dispostas a assumir o lugar da maturidade e da experiência com olhar crítico sobre as questões existenciais e da vida em sociedade para estabelecer com eles um diálogo interrogador. Várias pesquisas já mostraram que os jovens dão grande valor aos pais e aos professores em suas vidas. Entretanto, parece que estamos muito mais comprometidos com a juventude do que eles mesmos. Quem leva a sério questões importantes para eles em temas como política, sexualidade, drogas, ética, depressão e suicídio, vida em família, vida escolar, violência, relações amorosas e fidelidade, racismo, trabalho etc.? Quando digo levar a sério 8 Caderno de Questões – Advogado - 14/05/2017 me refiro a considerar o que eles dizem e dialogar com propriedade, e não com moralismo ou com excesso de jovialidade. E, desse mal, padecem muitos pais e professores que com eles convivem. Os adolescentes não conseguem desfrutar da solidão necessária nessa época da vida, mas parece que se encontram sozinhos na aventura de aprender a se tornarem adultos. Bem que merecem nossa companhia, não?

Sayão, Rosely. Passagem pela adolescência. Folha de S.Paulo, 21 fev. 2008. Caderno Equilíbrio, p. 12. 
Observe o seguinte trecho “Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a ideia de que eles não existem por muito mais tempo.”, o pronome em destaque se refere a palavra:
Alternativas

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Tema central: A questão aborda interpretação de texto com foco em coesão textual e referência pronominal. Isso envolve a habilidade de identificar a quem ou a quê um pronome faz referência dentro de um contexto, crucial para a clareza do entendimento textual.

Justificativa da alternativa correta – B) problemas:

No trecho: “Dessa forma, poupam o filho de enfrentar seus problemas no presente, é claro, mas também passam a ideia de que eles não existem por muito mais tempo.”, o termo destacado (“eles”) retoma o substantivo plural “problemas”.

Segundo as grandes gramáticas (ex.: Cunha & Cintra; Bechara), o pronome pessoal do caso reto “eles” substitui substantivos masculinos plurais previamente citados, estabelecendo a coesão textual. O contexto deixa claro que são os “problemas” que não existem (no sentido de serem ignorados) por mais tempo, e não os pais, filhos ou adolescentes.

Análise das alternativas:

A) pais: Incorreta. Os pais são os agentes da ação (poupar os filhos), não os objetos referidos por “eles”.

B) problemas: Correta. “Eles” refere-se diretamente a “problemas”, presente na frase anterior e perfeitamente concordante no gênero e no número.

C) adolescentes: Incorreta. Não há menção direta neste trecho de que os adolescentes “não existem por muito mais tempo”.

D) filhos: Incorreta. O contexto é claro ao afirmar que o objeto ‘poupado’ da experiência são os problemas, e não os filhos em si.

Estratégias de prova: Sempre que encontrar um pronome, retorne ao termo plural ou masculino plural mais próximo e relacionado semântica e logicamente ao sentido da frase. Pronomes de referência são uma das maiores fontes de “pegadinha” em provas, pois é comum o examinador intercalar vários substantivos próximos; concentre-se no núcleo da frase anterior.

Resumo: “Eles” retoma “problemas”, garantindo a coesão textual e concordando em gênero e número, conforme orientam as gramáticas de referência da Língua Portuguesa.

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