O que é o estranho gelo “super iônico”, que só
derrete a altas temperaturas
Algumas coisas no universo são tão
estranhas, que parecem coisas saídas de um filme
de ficção científica ou de uma edição de histórias
em quadrinhos. Um tipo de gelo que só derreteria
em temperaturas elevadas é o típico exemplo de
algo que só pode ter saído da cabeça maluca de
algum autor bastante criativo. Mas provando que
nada é estranho o suficiente que não possa piorar,
esse tipo de gelo existe e tem até nome: gelo
super iônico.
Apesar da comprovação de sua existência
ter sido feita em 2019, o gelo super iônico tem
sido teorizado desde 1988. O gelo super iônico é
uma propriedade incomum da água que só existe
em condições bastante específicas. É preciso que
a água esteja sob pressões e temperaturas tão
extremas, que seu estado fique ao mesmo tempo
entre o sólido e o líquido.
Uma molécula de água é formada por
dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio (a
famosa sigla H2O). Conforme vão esfriando, os
átomos vão se agitando, fazendo com que as
moléculas fiquem mais próximas umas das
outras até congelar, no processo conhecido como
solidificação. Mas na água super iônica, o
processo é diferente. O calor intenso faz com que
as
ligações entre os átomos das próprias
moléculas quebrem, de modo que na mistura
fiquem estruturas sólidas de átomos de oxigênio
com um fluxo de íons de hidrogênio (daí o nome
super iônico). Isso faz com que a água iônica se
encontre ao mesmo tempo sólida e líquida.
Chamado também de gelo quente ou gelo
negro (devido a sua cor preta), os cientistas
acreditam que esse (...) tipo de gelo pode ser a
forma de água mais abundante do universo. Essa
poderia ser uma explicação do por que Urano e
Netuno terem campos magnéticos tão diferentes.
Segundo os pesquisadores, não só o
núcleo desses dois planetas é composto por esse
gelo quente, mas outros exoplanetas também. O
recente estudo busca justamente estudar essa fase da água para conseguir entender a dinâmica do
nöcleo dos chamados planetas “gigantes de
gelo”, como Urano e Netuno. “A recente
descoberta de exoplanetas ricos em água
semelhantes a Netuno requer uma compreensão
mais detalhada do diagrama de fases da água nas
condições de pressão e temperatura relevantes
para seus interiores planetários”, afirmou
Arianna Gleason, pesquisadora de Ciências
Geológicas da Universidade Stanford.
Essa característica sólida e líquida do
gelo confere a ele capacidade de condução graças
aos seus íons de hidrogênio livres. No estudo de
2019, os pesquisadores já haviam comprovado a
existência dessa forma, mas o estudo recente
queria entender se seria possível encontrar uma
forma diferente do mesmo gelo, e se essa forma
poderia ter uma melhor condutividade.
Para isso, Gleason e sua equipe
comprimiram fatias finas de água entre duas
camadas de diamante, e então as bombardearam
com lasers. Com algumas ondas de choque, elas
aumentaram a pressão para até 2 milhões de
atmosferas, com temperaturas acima dos 4000
ºC. Ao utilizar difração de raios X, eles
descobriram que não somente esse gelo de fato
era diferente daquele descoberto em 2019, como
também possuía uma maior condutividade. A
presença de água em diferentes estados físicos e
essa condutividade gerada ajudaria a explicar o
padrão estranho observado no campo magnético
de Netuno e Urano, por exemplo.
É graças aos Íons das partículas soltas de
hidrogênio que os campos magnéticos são
gerados. Mas a pesquisa recente mostrou que os
planetas podem ter duas camadas com íons
diferentes, gerando dois campos magnéticos que
interagem um com o outro.
Revista Superinteressante. (Adaptado). Disponível em