Uso de suplementos proteicos de whey protein e creatina em
crianças e adolescentes: implicações clínicas e nutricionais
Nota emitida pela Sociedade Brasileira de Pediatria
Contexto atual e relevância para a pediatria
Os produtos comercialmente conhecidos como whey
protein e creatina são enquadrados pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (ANVISA) na categoria de suplementos
alimentares, sendo compostos, respectivamente, por proteína
do soro do leite e creatina. O whey protein apresenta-se em
diferentes formas (concentrada, isolada ou hidrolisada) e é
divulgado com alegações relacionadas ao ganho de massa
muscular e à melhora do desempenho físico. A creatina, por sua
vez, é um composto nitrogenado derivado de aminoácidos
(arginina, glicina e metionina), produzido pelo organismo e
também obtido pela alimentação, especialmente por meio de
carnes e peixes, e desempenha papel no metabolismo
energético celular, especialmente em tecidos de alta demanda,
como o músculo esquelético. Esses suplementos estão
amplamente difundidos no contexto da prática de atividade
física e esportiva entre adultos e caracterizam-se, em sua
maioria, como produtos ultraprocessados, por incorporarem
ingredientes como aromatizantes, edulcorantes e
emulsificantes. Diferentemente dos alimentos, que fornecem
proteínas associadas a vitaminas, minerais, fibras e compostos
bioativos, esses produtos promovem uma oferta concentrada e
descontextualizada de nutrientes, em desacordo com as
recomendações de uma alimentação adequada e saudável. O
whey protein e a creatina têm sido introduzidos, de forma
inadvertida, na alimentação de crianças e adolescentes,
impulsionados por estratégias de marketing e pela influência
das mídias digitais, frequentemente sem indicação clínica e sem
orientação profissional. Esse cenário é agravado pela crescente
oferta desses suplementos com apelo direcionado ao público
infantil, por meio de rotulagem atrativa, sabores adocicados e
formatos lúdicos, como balas, gomas e bebidas saborizadas.
Tais características favorecem a percepção equivocada de que
se trata de produtos habituais para a faixa etária pediátrica.
Necessidades proteicas na infância e adolescência: o
papel dos alimentos
A proteína é essencial para o crescimento e o
desenvolvimento, mas sua necessidade é frequentemente
superestimada. Crianças e adolescentes saudáveis apresentam
requerimentos proteicos que, em média, variam entre 0,85 e
0,95 g/kg/dia, facilmente atingidos por meio de uma
alimentação variada e equilibrada. Na prática, observa-se que
muitas crianças já apresentam ingestão proteica superior às
necessidades fisiológicas, de modo que a adição de
suplementos — mesmo em pequenas quantidades — não traz
benefício comprovado e não é isenta de riscos. Uma
alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente
processados — como carnes, ovos, leite e derivados,
leguminosas, cereais, tubérculos, frutas e hortaliças — assegura
não apenas a adequada oferta proteica (quantidade e qualidade),
mas também a ingestão de todos os nutrientes essenciais para o
crescimento e desenvolvimento saudáveis. O uso de
suplementos proteicos na pediatria é restrito a condições
clínicas específicas, como desnutrição, doenças crônicas,
síndromes de má absorção ou aumento da demanda metabólica,
entre outras, sempre sob prescrição e acompanhamento
profissional. Esse contexto não é extrapolável ao uso de suplementos de whey protein ou de creatina em crianças e
adolescentes com ou sem doenças associadas. Estudos
descrevem potenciais efeitos adversos renais, hepáticos e
metabólicos associados ao consumo excessivo e crônico de
proteína, atribuídos à sobrecarga das vias de metabolização e
de excreção de compostos nitrogenados. No rim, pode-se
observar aumento da produção de ureia e hiperfiltração
glomerular, com potencial de lesão intraglomerular em
indivíduos suscetíveis. No fígado, intensificam-se a
desaminação e o ciclo da ureia, elevando a produção de amônia,
especialmente em contextos de imaturidade. Do ponto de vista
metabólico, o excesso proteico pode estimular a secreção de
insulina e de Fator de Crescimento Semelhante à Insulina tipo
1 (IGF-1), interferir no balanço energético e favorecer a
lipogênese. Diante das evidências científicas atuais, não há
indicação para o uso rotineiro de suplementos proteicos à base
de whey protein e de creatina em crianças e adolescentes
saudáveis. Nessa fase, deve-se priorizar a construção do
comportamento alimentar e a oferta de uma alimentação
diversificada, capaz de atender às necessidades nutricionais de
cada etapa do desenvolvimento. O uso indiscriminado desses
suplementos, além de favorecer a ingestão excessiva de
nutrientes com potencial de sobrecarga de órgãos e sistemas,
também expõe as crianças e adolescentes a aditivos alimentares
(corantes, conservantes, emulsificantes) e pode determinar a
substituição de refeições, contribuindo para práticas
alimentares inadequadas e para o desenvolvimento de uma
relação disfuncional com a alimentação, cenário
frequentemente agravado pela influência das redes sociais e por
padrões corporais idealizados. O ato de se alimentar não se
limita ao consumo de nutrientes, mas integra um processo
relacional, cultural e identitário, construído no convívio
familiar e social e marcado por escolhas, preparo e modos de
consumo que expressam valores, tradições e vínculos afetivos.
Considerações finais
O uso de suplementos proteicos à base de whey protein
e de creatina não é indicado para crianças saudáveis e não deve
ser adotado de forma rotineira na adolescência. Uma
alimentação saudável, variada e baseada em alimentos in natura
ou minimamente processados, em preparações culinárias, é
suficiente para atender às necessidades nutricionais e promover
a formação de hábitos alimentares adequados. A suplementação
deve ser reservada a situações clínicas específicas, com
avaliação individualizada e acompanhamento profissional. O
pediatra desempenha papel central na orientação de famílias,
crianças e adolescentes, sendo fundamental esclarecer que
esses suplementos não são necessários para o crescimento e
desenvolvimento adequados. A abordagem deve contemplar a
educação nutricional, a valorização de práticas alimentares
saudáveis e a discussão crítica sobre influências externas, como
o marketing e as mídias sociais. Além disso, é essencial
reconhecer precocemente o uso inadequado desses produtos e
intervir de forma oportuna. O cuidado com a alimentação na
infância e na adolescência constitui uma estratégia fundamental
para a promoção da saúde ao longo da vida.
Disponível em https://www.sbp.com.br/pediatras-alertam-sobre-perigos-douso-de-suplementos-proteicos-de-whey-protein-e-creatina-por-criancas-eadolescentes/
Assinale a alternativa que apresenta o objetivo
principal da nota emitida pela Sociedade Brasileira
de Pediatria.
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