Nos primeiros meses após perder a língua fomos tomadas
de um sentimento de união que estava embotado com aquele
passado de brigas e disputas infantis. No início se instalou uma
grande tristeza em nossa casa. Os vizinhos e compadres vinham
nos visitar, fazer votos de melhoras. Minha mãe se revezava com
as vizinhas, que olhavam os filhos menores enquanto ela
cozinhava papas, mingau de cachorro para ajudar na cicatrização,
purês de inhame, batata-doce ou aipim. Nosso pai seguia para a
roça ao nascer do dia. Rumava com seus instrumentos depois de
passar a mão nas nossas cabeças com suas preces sussurradas aos
encantados. Quando retomamos as brincadeiras, havíamos
esquecido as disputas, agora uma teria que falar pela outra. Uma
seria a voz da outra. Deveria se aprimorar a sensibilidade que
cercaria aquela convivência a partir de então. Ter a capacidade de
ler com mais atenção os olhos e os gestos da irmã. Seríamos iguais. A que emprestaria a voz teria que percorrer com a visão
os sinais do corpo da que emudeceu. A que emudeceu teria que
ter a capacidade de transmitir com gestos largos e também
vibrações mínimas as expressões que gostaria de comunicar.