Os cronistas mais organizados costumam
escolher, no fim de ano, os dez melhores, os dez
maiores, os dez mais isto ou aquilo do ano que
passou. Essas escolhas públicas não têm o
encanto das escolhas particulares, feitas em uma
pequena roda, em que se costuma decidir, depois
de severos debates, qual foi o maior “fora”, o pior
vexame, o melhor golpe do baú, o maior chato do
ano, a mais bela dor de cotovelo, o mais louvável
infarto do miocárdio, o party mais fracassado, a
cena mais ridícula, o marido mais manso etc.
Note-se que para a escolha deste último deve-se
levar em conta que há muitos cavalheiros que não
podem ser aceitos no páreo, devem ser considerados hors-concours. É preciso
incentivar os valores novos.
Depois desse salutar exercício, proponho
que cada pessoa faça um exame de consciência e
pergunte a si mesma com que direito se arvora
em juiz dos outros. Pense nos seus próprios
pecados, nos seus próprios ridículos. Procure ver
a si mesmo como se fosse alguém a quem
quisesse ridicularizar. Como seria fácil! Quem
sabe que a virtude de que você mais se envaidece
é menos uma virtude do que medo da polícia, ou,
mais comumente, do ridículo?
Dizem que o crime não compensa. E a
virtude, compensará? Espero que sim, mas talvez
só no outro mundo. Neste aqui não sei; mas
conheço pessoas virtuosas que me parecem tão
azedas, tão infelizes, tão entediadas, tão sem
graça com a própria virtude que dão vontade da
gente dizer:
― Está muito bem, nossa amizade, você
é formidável. Mas assim também enjoa. Peque
pelo menos uma vezinha, sim? É bom para
relaxar.
Raul de Leoni sonhava com... “um
cristianismo ideal, que não existe, onde a virtude
não precisasse ser triste, onde a tristeza fosse um
pecado venial...”.
Acho que a pessoa querer buscar a
felicidade em pecados e sujeiras só não é um erro
quando a pessoa tem mesmo muita vocação para essas coisas. Mas isso é raríssimo. A maior parte
dos sujos tem uma inveja secreta e imensa dos
honrados, dos limpos. Sofre com isto. Sofre tanto
quanto os que vivem além do gabarito da própria
virtude.
Desejo a todos, no Ano-Novo, muitas
virtudes e boas ações e alguns pecados
agradáveis, excitantes, discretos, e,
principalmente, bem-sucedidos.
BRAGA, R. Votos para o Ano-Novo. In: BRAGA, R.
As boas coisas da vida. Rio de Janeiro: Record, 1989,
p. 185-187. Disponível em
.<https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/14877/voto
s-para-o-ano-novo>.
Em “pergunte a si mesma com que direito se
arvora em juiz dos outros”, a palavra “que” atua
como pronome relativo. Esse vocábulo é
substituído corretamente por outra palavra ou
expressão de mesma função, de modo a preservar
o sentido original da sentença, apenas em:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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Parabéns! Você acertou!
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