Estranhei muito na primeira vez que
escutei a expressão "de próprio punho". Parecia
que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso.
Foi numa situação bancária, dessas bem
burocráticas, e eu devia escrever algo bem
breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o
que importava era a autenticidade da minha
caligrafia, que à época ainda era mais fluente e
firme. Depois dos teclados de computador, ela
rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma
espécie de bipolaridade: dia sim, dia não,
trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e
mais cheia de arestas. Na época do episódio
com o banco, que, se não me engano, dizia
respeito a fechar uma conta (que eu jamais
quisera abrir, aliás), o negócio era escrever com
minha mãozinha, expressando minha letra e
minha assinatura, que são só minhas, segundo
confiam as perícias e polícias científicas.
É claro que já escrevi muito mais de
próprio punho ou, numa palavra mais bonita,
manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora
ele também seja usado na tarefa). Mas isso não
é um feito individual. Em larga medida, é
social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto
é, escreve bem menos usando as mãos, ou
melhor, empregando algum tipo de tecnologia
(lápis, caneta, etc.) para escrever por meio de
grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o
que mais. É importante lembrar que ainda há
gente que não sabe escrever neste país, neste
planeta, mas muita gente sabe e tem um combo
de tecnologias mais ou menos à disposição para
isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm
várias possibilidades, e uma delas nunca deixou
de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são
elas que batucam meu teclado de computador
ou que tocam suavemente duas ou três telas
sensíveis. Mas não expressam mais a minha
letra. No lugar, aparecem Times New Roman,
Arial, Calibri e mais uma centena de "letras" à
minha escolha. (...)
A escrita e suas tecnologias incríveis
vão se reposicionando, mudando de status,
numa ciranda interessante e importante que
pode ser vista à luz de certa diversidade que
encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui
e ali. Não adianta muito pensar sempre como se
tudo fosse excludente. Estão aí minha farta
comunicação por bilhetes, minha gaveta alegre
de postits de toda cor, esperando para serem
usados, e o cheque do cartório, em que quase
tudo já é digital. "Do punho ao pixel” não é uma
frase filosoficamente correta. O negócio é mais
"o punho e o pixel".
RIBEIRO, Ana Elisa. De próprio punho. Rascunho.
Disponível em <https://rascunho.com.br/cronistas/anaelisa-ribeiro/de-proprio-punho/>.
"Na verdade, o que importava era a
autenticidade da minha caligrafia"
A palavra destacada no trecho acima indica uma
situação que caracteriza algo como:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Veja como esse erro impacta seu desempenho geral. Ver estatísticas