Leituras têm impacto especial quando estamos doentes
Ficar acamado nunca é divertido,mas a companhia de um bom
livro é sempre bem−vinda
10 jan.2023 às 8h00
Longos períodos de convalescença são ideais para quem
deseja colocar a leitura em dia. Sempre que estou doente,
busco a companhia de um livro. Agora mesmo, enquanto me
recuperava de uma infecção por Covid em plena temporada
de festas, a primeira coisa que fiz foi encher uma mochila com
material de leitura e carregá−la comigo para a cama.
Este é um hábito que me acompanha desde menina,
quando os meus pais procuravam algo para me entreter nos
momentos em que eu não estava bem. Assim, lembro de
receber muitos livros e revistas de quadrinhos quando
precisava ficar de molho, me recuperando de algum processo
alérgico, de uma gripe ou mesmo de um acidente.
A leitura, nessas circunstâncias, nos ajuda a combater o
tédio e a inquietação. Não sei se isto também acontece com
vocês, mas é justamente quando estou doente que paro para
questionar a vida e refletir sobre o que preciso fazer para ser
uma pessoa minimamente satisfeita.
Não sou, nem nunca fui uma doente fácil. Bastam dois
dias de cama para me deixar angustiada. Sou inquieta, gosto
de trabalhar e de me mexer, e fico de mau humor quando
percebo que o meu corpo pede arrego.
A impossibilidade de realizar tarefas simples e
corriqueiras como tomar banho de cabeça, cozinhar ou ir ao
supermercado para comprar frutas faz com que a minha
imaginação antecipe cenários em que não terei mais
condições de viver sozinha e de fazer as minhas coisas por
conta própria.
Assim, ao constatar a fragilidade e o desconforto
causados pela doença, é bastante comum que eu me pergunte
se estou levando uma boa vida, se realmente estou a fazer o
melhor para mim e para as pessoas que, de alguma forma,
contam comigo e apostam na minha felicidade. Nesses
momentos, a leitura me resgata e ajuda a superar a angústia.
A convalescença, como toda quebra de rotina, faz com
que a nossa relação com o tempo seja alterada. Quando
estamos acamados, perdemos a noção da hora. Acordamos
tarde, dormimos cedo e passamos as noites entre o sono e a
vigília, a querer adiantar os ponteiros do relógio.
Toda essa confusão faz com que acabemos voltando a
nossa atenção para nós mesmos, em uma tentativa de
mantermos a ilusão de que temos controle sobre algo. Assim,
doentes, achamos que não nos resta outra coisa a não ser
pensar compulsivamente sobre as nossas vidas.
Ler — o ato de tomar um livro nas mãos e virar as suas
páginas uma por uma, em uma sequência crescente e
determinada, pacientemente acompanhando o desenrolar de
uma história e me esforçando para entender as implicações do
que está no papel — é algo que sempre me ajuda a sair de um
estado de obsessiva preocupação comigo mesma.
[...]
Tenho para mim que a disciplina inspirada pela leitura, ao
permitir com que nos tornemos mais atenciosos e
pacientes para acompanharmos uma trama do começo ao fim,
também seja capaz de restaurar certa impressão de rotina na
vida de quem está acamado, ajudando−o mais uma vez a
emprestar ordem, ritmo e propósito às suas reflexões.
Talvez seja por isso, não tenho certeza, que as leituras
feitas durante os nossos períodos de convalescença acabam se
tornando tão determinantes para nós, como se elas
possuíssem uma dimensão transformadora. Consultando a
memória, identifico alguns dos livros que me marcaram ao
longo dos anos e percebo que muitos foram lidos justamente
quando eu estive de cama. Mas será que eles teriam tido o
mesmo impacto em minha vida caso eu os tivesse encontrado
em outro momento?
Penso que não. Ao menos no meu caso, os longos
períodos de convalescença têm o efeito de suavizar algumas
das minhas resistências, fazendo com que eu me sinta um
pouco mais disposta a conhecer a obra de autores que
normalmente não encontrariam lugar entre as minhas
preferências.
Essa é provavelmente uma dasrazões pelas quais a gente
tenha a impressão de que essas leituras de alguma maneira
operam uma transformação em nossas vidas. Pois, se estamos
lendo algo interessante, porém diferente de quase tudo aquilo
a que geralmente temos acesso, então, realmente faz sentido
achar que algo em nós esteja mudando graças àquela leitura.
[...]
Ficar doente nunca é divertido, mas a companhia de um bom
livro é sempre bem−vinda, principalmente quando ela nos
empresta novas ferramentas para enfrentar os desafios que
nos são impostos pela vida.
Albuquerque, Juliana de. Disponível em
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliana−de−
albuquerque/2023/01/leituras−tem−impacto−especial−quando−
estamos−doentes.shtml Acesso em 12 jan. 2023.
Em “mas é justamente quando estou doente que paro para
questionar a vida e refletir sobre o que preciso fazer para ser
uma pessoa minimamente satisfeita”, o termo sublinhado:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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