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Q186554 Português

Ciência e moralidade


      A percepção pública da ciência é, com razão, repleta de conflitos. Alguns acreditam que a ciência seja a chave para a liberdade do homem, para a melhora das condições de vida de todos, para a cura dos tantos males que afligem pobres e ricos, desde a fome até as mais variadas doenças. Já outros veem a ciência com grande desconfiança e até com desprezo, como sendo a responsável pela criação de várias armas de destruição inventadas através da história, da espada à bomba atômica. Para esse grupo, os homens não são maduros o suficiente para lidar com o grande poder que resulta de nossas descobertas científicas.
      No início do século 21, a clonagem e a possibilidade de construirmos máquinas inteligentes prometem até mesmo uma redefinição do que significa ser humano. Na medida em que será possível desenhar geneticamente um indivíduo ou modificar a sua capacidade mental por meio de implantes eletrônicos, onde ficará a linha divisória entre homem e máquina, entre o vivo e o robotizado? Entre os vários cenários que vemos discutidos na mídia, o mais aterrorizador é aquele em que nós nos tornaremos forçosamente obsoletos, uma vez que clones bioeletrônicos serão muito mais inteligentes e resistentes do que nós. Ou seja, quando (e se) essas tecnologias estiverem disponíveis, a ciência passará a controlar o processo evolutivo: a nossa missão final é criar seres “melhores” do que nós, tomando a seleção natural em nossas próprias mãos. O resultado, claro, é que terminaremos por causar a nossa própria extinção, sendo apenas mais um elo na longa cadeia evolutiva. O filme“Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg, relata precisamente esse cenário lúgubre para o nosso futuro, a inventividade humana causando a sua destruição final.
      É difícil saber como lidar com essa possibilidade. Se tomarmos o caso da tecnologia nuclear como exemplo, vemos que a sua história começou com o assassinato de centenas de milhares de cidadãos japoneses, justamente pela potência que se rotula o “lado bom”. Esse rótulo, por mais ridículo que seja, é levado a sério por grande parte da população norte-americana. É o velho argumento maquiavélico de que os fins justificam os meios: “Se não jogássemos as bombas em Hiroshima e Nagasaki, os japoneses jamais teriam se rendido e muito mais gente teria morrido em uma invasão por terra”, dizem as autoridades militares e políticas norte-americanas. Isso não só não é verdade como mostra que são os fins político-econômicos que definem os usos e abusos da ciência: os americanos queriam manter o seu domínio no Pacífico, tentando amedrontar os soviéticos que desciam pela Manchúria. As bombas não só detiveram os soviéticos como redefiniram o equilíbrio de poder no mundo. Ao menos até os soviéticos desenvolverem a sua bomba, o que deu início à Guerra Fria.
      As consequências de um conflito nuclear global são tão horrendas que até mesmo os líderes das potências nucleares conseguiram resistir à tentação de abusar de seu poder: criamos uma guerra sem vencedores e, portanto, inútil. Porém, as tecnologias nucleares não são propriedade exclusiva das potências nucleares. A possibilidade de que um grupo terrorista obtenha ou construa uma pequena bomba é remota, mas não inexistente. Em casos de extremismo religioso, escolhas morais são redefinidas de acordo com os preceitos (distorcidos) da religião: isso foi verdade tanto nas Cruzadas como hoje, nas mãos de suicidas muçulmanos. Eles não hesitariam em usar uma arma atômica, caso ativessem. E sentiriam suas ações perfeitamente justificadas.
      Essa discussão mostra que a ciência não tem uma dimensão moral: somos nós os seres morais, os que optamos por usar as nossas invenções de modo criativo ou destrutivo. Somos nós que descobrimos curas para doenças e gases venenosos. Daí que o futuro da sociedade está em nossas mãos e será definido pelas escolhas que fizermos daqui para a frente. (...) Não é da ciência que devemos ter medo, mas de nós mesmos e da nossa imaturidade moral. 

(Marcelo Gleiser, in Folha de São Paulo, 7 de julho de 2002)

No período abaixo, dois termos grifados apresentam a mesma função sintática.Aponte-os.

"As bombas não só detiveram os soviéticos como redefiniram o equlíbrio de poder no mundo . Ao menos até os soviéticos desenvolverem a sua bomba, o que deu início à guerra fria ."
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: A identificação depende da regência verbal no trecho "As bombas não só detiveram os soviéticos como redefiniram o equilíbrio de poder no mundo. Ao menos até os soviéticos desenvolverem a sua bomba, o que deu início à guerra fria.". Nessa estrutura, "redefiniram" pede objeto direto e "desenvolverem" também pede objeto direto, de modo que "o equilíbrio" e "a sua bomba" exercem a mesma função sintática.

Tema central: objeto direto verbal
Análise das alternativas
A
Errada
"As bombas" não tem a mesma função de "o equilíbrio". No período, "As bombas" é sujeito dos verbos "detiveram" e "redefiniram", por concordar com essas formas verbais. Já "o equilíbrio" é objeto direto de "redefiniram". A alternativa erra ao igualar sujeito e objeto direto.
B
Certa
A alternativa correta reúne os dois termos que completam verbos transitivos diretos sem preposição exigida. Em "redefiniram o equilíbrio", "o equilíbrio" é objeto direto. Em "desenvolverem a sua bomba", "a sua bomba" também é objeto direto. A coincidência de função sintática entre esses dois complementos verbais decide o item.
C
Errada
"no mundo" e "à Guerra Fria" não coincidem sintaticamente. "no mundo" funciona como adjunto adverbial, indicando o âmbito da redefinição do equilíbrio de poder. Já "à Guerra Fria" aparece em "deu início à guerra fria" como termo regido pela expressão "dar início a". Um é adjunto adverbial; o outro, complemento regido. Não são a mesma função.
D
Errada
"os soviéticos", em "até os soviéticos desenvolverem a sua bomba", é sujeito de "desenvolverem". Já "à Guerra Fria" é o termo preposicionado exigido pela expressão "dar início a". A alternativa mistura sujeito com complemento regido por preposição, funções que não se identificam.
E
Errada
"o equilíbrio" é objeto direto de "redefiniram", mas "os soviéticos", no trecho considerado pela alternativa, não é objeto: em "os soviéticos desenvolverem a sua bomba", ele funciona como sujeito do infinitivo "desenvolverem". A questão explora justamente a mudança de função desse sintagma no período.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: "os soviéticos" aparece no período com funções diferentes, e os termos preposicionados "no mundo" e "à guerra fria" podem induzir a falsa ideia de mesma função apenas por terem preposição.
Dica para questões semelhantes
  • Localize primeiro o verbo ao qual cada termo destacado se liga; a função sintática depende dessa relação, não da forma isolada do sintagma.
  • Diferencie sujeito de objeto direto pela estrutura verbal: o sujeito concorda com o verbo, enquanto o objeto direto completa verbo transitivo direto sem preposição exigida.
  • Não iguale termos só porque ambos são sintagmas nominais ou porque ambos vêm com preposição; é a regência da construção que define a função.
  • Se um mesmo termo aparece mais de uma vez no período, analise cada ocorrência separadamente; a função sintática pode mudar.

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Comentários

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... redefiniriam o quê?  o equilíbrio (objeto direto)
... desenvolveram o quê? a sua bomba (objeto direto)

" ... redefiniram o equlíbrio de poder no mundo ... "

           VTD              OD

 

" ... até os soviéticos desenvolverem a sua bomba ... "

                                         VTD               OD

 

a) as bombas: sujeito; o equilíbrio: objeto direto;

c) no mundo: adjunto adverbial; à Guerra Fria: objeto indireto;

d) os soviéticos: sujeito; à Guerra Fria: objeto indireto;

e) o equilíbrio: objeto direto; os soviéticos: sujeito;

 

Quem escolheu a busca não pode recusar a travessia - Guimarães Rosa

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Gabarito: B

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