Considerando as características linguístico-textuais, estrut...
A saúde mental dos jovens no retorno letivo presencial
“Que tristeza seria estar enclausurado em casa nessa fase da vida!”. Durante os períodos mais críticos da pandemia, esse pensamento surgiu com frequência em conversas entre amigos de diferentes idades, que puderam viver o início de suas juventudes sem a obrigação do distanciamento social. Aos seus 15, 16 anos, muitos de nós até preferiam ficar sossegados em casa quando podíamos. Mas essa era uma preferência, uma escolha, tinha algo de eventual – não era uma obrigação prolongada durante meses.
Não há dúvidas que o período de afastamento – necessário epidemiologicamente – dos jovens brasileiros de suas rotinas presenciais nas escolas e nos círculos de amizade produziu severos danos ao desenvolvimento corporal, cognitivo e emocional. Questões emocionais e de saúde mental não são novidade na educação brasileira, mas foram aprofundadas no contexto de carência relacional vivida por milhões de jovens na pandemia. Os números que temos são estarrecedores: 70% dos estudantes da rede estadual de São Paulo relataram sintomas de depressão e ansiedade no retorno letivo presencial. O caso de crise de ansiedade coletiva em uma escola estadual de Pernambuco também é ilustrativo do momento que vivemos.
Relacionada a esse desafiador quadro de saúde mental, outra estatística chama a atenção: no início de 2022, em relação a 2019, houve um aumento de 48% nos casos de agressão física nas escolas estaduais de São Paulo. No noticiário de todo o país, explodiu a ocorrência de casos de discriminação e bullying, bem como as cenas de violência e brigas entre os alunos – popularizadas e incentivadas nas redes sociais. Como aponta o relatório da Unicef de 2021 sobre o impacto da Covid-19 na saúde mental, a ruptura com as rotinas produziu medo, irritação e insegurança, elementos que catalisam comportamentos violentos em um contexto em que jovens sofrem uma pressão adicional por se provar coletivamente.
Há pelo menos dois tipos de violência entre jovens que precisamos observar no contexto do retorno letivo presencial. Primeiro, o bullying e a dificuldade de respeitar e conviver com as diferenças. Segundo, uma violência relacionada à dimensão do teste de força e poder no território da escola. Cada tipo de violência demanda respostas diversas em termos de políticas públicas, que vêm sendo estudadas por instituições e pesquisadores especialistas em psicologia juvenil, com propostas sólidas sendo experimentadas em diversos cantos do país – como evidenciou o vasto levantamento produzido pela consultoria Vozes da Educação.
Um dos caminhos a ser trilhados é um trabalho, no miúdo de cada escola, para canalizar a energia dos jovens não para a agressão ou a violência, mas para criarem e brilharem. Precisamos organizar oportunidades de torná-los protagonistas de feitos transformadores, usando o potencial das redes sociais para ondas de disseminação de exemplos que valorizem positivamente a imagem dos jovens. Vale dizer, nessa linha, que a questão imagética é preponderante: segundo pesquisa organizada pela Fundação SM, a característica que mais identifica os jovens atualmente – segundo eles mesmos – é a de serem “preocupados demais com sua imagem”.
Certamente há um papel central dos educadores e das educadoras nessa ressignificação das identidades dos jovens, por vezes inseridos em contextos de violência doméstica, que é replicada nas demais relações interpessoais. Isso aparece no filme “Coach Carter”, blockbuster de 2005. Também está presente na série espanhola “Merlí”, que apresenta a força de novas formas de expressão para mudar estereótipos juvenis. E é narrada no documentário brasileiro “Nunca me Sonharam”, que aborda a experiência de um diretor que mudou sua escola a partir de novas oportunidades para os jovens que antes eram tidos como “alunos-problema”. Ainda, vemos essa experiência de ressignificação a partir do trabalho dos educadores na realidade das escolas municipais de São Paulo (SP), onde há uma ação institucionalizada para que os alunos direcionem suas energias para criar soluções em favor das suas comunidades – criações científicas, culturais e nas diversas linguagens que os próprios adolescentes inventam.
As palavras-chave, sobretudo no contexto do retorno às rotinas escolares presenciais, são acolhimento e oportunidade, ao invés de criminalização e fechamento de portas, transformando situações psicológicas desafiadoras em um salto de pertencimento coletivo. Em Mogi das Cruzes (SP), por exemplo, a rede municipal de ensino criou plantões de acolhimento emocional para seus estudantes desde os primeiros anos do Ensino Fundamental, a partir do trabalho de escuta sensível por parte de uma equipe de psicólogas escolares. Famílias e mesmo profissionais da educação que nunca tiveram acesso a apoio psicológico passaram a ter essa oportunidade, quebrando barreiras de preconceito sobre a importância da saúde mental desde a infância. Por sua vez, a rede municipal de Londrina (PR) tem promovido formações de professores e círculos de diálogos com os alunos para o exercício da cooperação, da tolerância, da aceitação e respeito ao outro, da noção de limites, do conhecimento de si, do convívio e participação social. São iniciativas que saíram da teoria e foram para a prática, reconhecendo a importância da saúde mental e emocional no contexto da retomada das atividades letivas presenciais.
Construir respostas de políticas públicas nesse contexto pode ganhar muitos graus de efetividade se bebermos da fonte mais preciosa, acolhendo as ideias de quem vive na pele os danos do distanciamento social. Precisamos chamar os jovens para a solução, de tal maneira que exercitem a criatividade de como melhorar seu próprio bem-estar. Como promover respeito à diversidade entre os jovens senão na linguagem deles? Como transformar a escola em um ambiente agregador e emocionalmente saudável senão pela construção de uma identidade coletiva dos próprios jovens?
(CALLEGARI, Caio; FERNANDES, Malu. A saúde mental dos jovens no retorno
letivo presencial. Nexo Jornal, 2022. Disponível em: https://www.nexojornal.
com.br/ensaio/2022/A-sa%C3%BAde-mental-dos-jovens-no-retorno-letivopresencial. Acesso em: 20/06/2022. Adaptado.)
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Gabarito comentado
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Gabarito comentado – Tipologia textual (questão de interpretação de textos)
Tema central: O estudante deve reconhecer a tipologia textual predominante em um texto, identificando as características do texto argumentativo conforme a norma-padrão, conforme preveem gramáticas como a de Bechara e estudos de gêneros textuais (Marcuschi).
Alternativa correta: D) Argumentativa
Justificativa: O texto apresenta, fundamenta e defende uma tese: o impacto da pandemia na saúde mental dos jovens, apontando a necessidade de estratégias de acolhimento e inclusão no ambiente escolar. Para isso, utiliza dados, exemplos de políticas públicas, cita pesquisas e convida à reflexão. Segundo Bechara, “o texto argumentativo apresenta ponto de vista e desenvolve raciocínio persuasivo”. O uso de exemplos, estatísticas e propostas reforça a intenção de convencer o leitor.
Estratégia de resolução: Ao ler questões sobre tipologia, busque o objetivo central do texto (narra, expõe, argumenta ou descreve?). Textos argumentativos destacam-se por defender ideias, articulando razões, causas e soluções apoiadas em dados.
Análise das alternativas incorretas:
A) Narrativa: Embora haja relatos e exemplos, o texto não objetiva contar uma história (falta enredo, personagens, tempo e espaço definidos). Trata-se de relato a serviço da argumentação.
B) Descritiva: As descrições são subsidiárias, apenas detalham contextos/fatos para sustentar a argumentação central.
C) Expositiva: Apesar da exposição de informações, ela está atrelada à intenção de convencer, típica do texto argumentativo.
Elementos essenciais: O reconhecimento de verbos opinativos (“precisamos chamar...”, “é necessário...”) e expressões de juízo valorativo (“é estarrecedor”, “crise desafiadora”) denuncia a presença da argumentação. Assim, a alternativa D é a única adequada.
Dica: Em textos de prova, observe sempre a intenção do autor e o modo como as informações são apresentadas. Argumentação vem acompanhada de defesa de pontos de vista e justificativas.
Referências: Marcuschi (2002), Bechara (2009), Koch & Elias (2006).
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Comentários
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Gab: D
gab D
sempre tem uma tese e depois um argumento...
Os textos narrativos se caracterizam pela narração de acontecimentos. Os acontecimentos narrados podem ser verídicos ou fictícios e narrados em ordem cronológica ou psicológica. Como elementos narrativos, destacam-se: espaço, tempo, enredo, personagens, narrador, modo, motivo e resultado.
Texto descritivo tem como característica a descrição de pessoas, acontecimentos, ambientes etc. Objetiva formar uma imagem clara do que está sendo descrito para o leitor. O texto descritivo descreve de situações, características físicas, sentimentos, gestos, entre outros, dos quais o leitor constrói uma imagem mental.
O texto expositivo é aquele que tem o objetivo de apresentar um assunto ou acrescentar informações sobre determinado tema. Sua estrutura baseia-se na composição ou decomposição de um assunto, utilizando, para isso, explicações e dados de outras áreas, a fim de funcionar como um texto informativo.
Texto argumentativo é aquele que tem como principais características defender uma ideia, hipótese, teoria ou opinião e o objetivo de convencer o leitor para que acredite nela. Tem uma estrutura bem definida: apresenta sua tese e depois utiliza justificativas e alegações com o propósito de persuadir a sua audiência
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