Assim como o ‘atraso’ sempre foi uma
escolha consciente, o ‘abismo’ é um
desejo secreto.
Há um grande amor brasileiro
pelo fracasso. Quando ele acontece, é
um alívio. O fracasso é bom porque nos
tira a ansiedade da luta. Se já
perdemos, para que lutar?
Sempre que há uma crise ou
uma catástrofe nacional, irrompe uma
euforia de cabeça para baixo. É como se
a opinião pública dissesse: “Eu não
avisei? Não adianta tentar que sempre
dá tudo errado”...
Nada como um desastre ou
escândalo para acalmar a plateia.
Danem-se as questões importantes,
dane-se a crise econômica, dane-se
tudo. Bom é fofoca e denúncia. Nada
acontece, dando a impressão de que
muito está acontecendo.
Temos a velha crença colonial
de que nossa vida é um conto do vigário
em que caímos. Somos sempre vítimas
de alguém. Nunca somos nós mesmos.
Ninguém se sente vigarista.
O fracasso nos enobrece. O
culto português das impossibilidades é
famoso. Numa sociedade
patrimonialista como Portugal do século
16, onde só o Estado-rei valia, a
sociedade era uma massa sem vida
própria. Suas derrotas eram vistas com
bons olhos, pois legitimavam a
dependência ao rei. Fomos educados
para o fracasso.
Quem tem coragem de ir à TV e
dizer: “O Brasil está melhorando!”,
mesmo que esteja? Ninguém diz. É feio.
Falar mal do País é uma forma
de se limpar. Sentimo-nos fora do poder,
logo é normal sabotar.
O fracasso é uma vitória para
muitos. “Não fui eu que fracassei; foi o
governo, o neoliberalismo, sei lá.”
Nossos heróis todos fracassaram.
Enforcados, esquartejados, revoltas
abortadas, revoluções perdidas lhes
dão uma aura de martírio e santidade.
Peguem um herói norte-americano:
Paul Revere, por exemplo. Cavalgou 24
horas e conseguiu salvar tropas
americanas na Guerra da
Independência. Foi o herói da eficiência.
Aqui, só os fracassados verão Deus.
“Seja marginal, seja herói.” O
fracasso é legal, a vitória é careta. A
vitória dá culpa; o fracasso é um alívio.
A crise, a catástrofe têm um
sabor de “revolução”. É como se a
explosão “revelasse” algo, uma
tempestade de merda purificadora –
depois de tudo arrasado, a pureza
renasceria do zero.
Agora, com a denúncia da
Odebrecht, a denúncia do fim do mundo,
não há mais o que analisar, o que
prever, o que vai acontecer... Temos de
nos calar diante do inenarrável.
Estamos sem palavras diante da mais
louca crise institucional que já vimos. Os
escândalos “parecem” acontecimentos.
A Lava Jato foi nosso grande
‘acontecimento’. Mas, agora, que a luta
contra a corrupção já aconteceu, é
preciso que as descobertas, as
condenações levem a algum outro lugar
além da moralidade pública, além da
sensação de purificação da política.
Espalhou-se a teoria de que o problema
do Brasil é moral. Assim, muitos lutam
pela moral, mas são contra a Lei de
Responsabilidade Fiscal. A Lava Jato
tem de ser o começo da mudança de
uma estrutura burocrática feita para dar
errado sempre.
Não nos esqueçamos que o
Atraso é um desejo, não um acidente de
percurso.
Assim como o ‘atraso’ sempre foi
uma escolha consciente no passado, o
‘abismo’, o brejo para nós são um
desejo secreto. Há a esperança
inconsciente de que do fundo do caos
surja uma solução divina. Antigamente,
achávamos que os fatos nos levariam a um futuro harmônico, que a vida era
uma linha reta, que ia desde os
macacos até o paraíso cristão ou,
recentemente, ao fim da história.
Não são as décadas que nos
transformam; são os fatos. Eles cavam
buracos no tempo e criam caminhos que
não podemos prever. Há épocas lentas,
há épocas sangrentas, épocas eufóricas
e ingênuas, há épocas que parecem
ataques epiléticos da história.
Nossos intelectuais se deliciam
numa teoria barroca da “zona” geral. O
Brasil é visto como um grande bode sem
solução, para a felicidade dos velhos
militantes imaginários. Quem quiser
positividade é traidor. Recebe um rótulo
de neoliberal ou reacionário na hora.
Não ocorre aos velhos comunas que
pessoas possam evoluir politicamente,
buscando soluções pragmáticas, mais
possíveis. Não; é um dogma. A miséria
tem de ser mantida in vitro, para
justificar teorias e absolver
incompetência. A Academia cultiva o
insolúvel como uma flor. “Qual a solução
para o Brasil?”, perguntam. Mas a
própria ideia de ‘solução’ é um culto ao
fracasso. Não lhes ocorre que a vida
seja um processo, vicioso ou virtuoso, e
que só a morte de uma pessoa ou de um
país é a solução.
Há um negativismo crônico no
pensamento brasileiro. Paulo Prado
contra Gilberto Freyre. Para eles, a
esperança é ingênua; a desconfiança é
sábia: “Aí tem dente de coelho, alguma
ele fez...”.
Jamais perdoaram o FHC por ter
abandonado a utopia tradicional e
aderido à ‘realpolitik’ da socialdemocracia.
Foi queimado como traidor pela
gangue de canalhas e ignorantes. Foi
um dos maiores erros da chamada
‘esquerda’, talvez a maior perda de
oportunidade da história. Foi aí que o PT
iniciou sua rota para o nada.
Agora, temos o ridículo
fenômeno do ‘Fora Temer’, o mantra
dos imbecis, que não conseguem
entender que nosso problema é
econômico – se o Temer pusesse o
demônio no Congresso, valeria a pena.
Se as reformas da Previdência e
trabalhista e fiscal não forem feitas, bye
bye Brazil...
Repito o assessor do Clinton,
James Carville: “Trata-se da Economia,
estúpidos!”.
As velhas categorias para
explicar o Brasil morreram. Já há uma
pós-corrupção, uma pós-direita
(disfarçada de “esquerda”). Mas a
burrice é uma força da natureza.
Vejam como o Brasil se animou
com a crise atual. Manifestações
populares, panelas batendo, bandeiras
brasileiras. Tudo bem, mas o que fazer
estruturalmente? Além das reformas
óbvias, ninguém sabe nada.
Aliás, acho que estávamos
precisando mesmo de um beco sem
saída. Ele está chegando.
Ninguém sabe o que vai
acontecer. Se o governo Temer não
conseguir reformar o Estado, será o
primeiro grande trauma que os
privilegiados sentirão. Os miseráveis já
estão acostumados
"Em verdade voz digo que, mesmo
que saibam que são feitos da mesma
matéria que todos, sempre se
esquecem DE QUE todos voltarão ao
pó." A oração introduzida pelo conectivo
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