No texto de Carlos Drummond de Andrade, é possível perceber ...
Leia o texto a seguir para responder às questões 7 e 8
FURTO DE FLOR
Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.
Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida.
Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
(ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985. p. 80).
No texto de Carlos Drummond de Andrade, é possível perceber que o eu-lírico revela diferentes sentimentos desde que furta a flor. Assinale a opção que revela tais sentimentos.
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Comentário da Questão – Interpretação de Texto
Tema central: O foco aqui é interpretação de texto, mais precisamente a leitura atenta dos sentimentos e emoções do eu-lírico no conto. Para a prova de Técnico de Laboratório - Industrial, exige-se essa habilidade, pois a capacidade de observar, compreender detalhes e interpretar informações é fundamental também na área técnica.
Regra-chave: “Em questões de identificação de sentimentos, busque indicadores nas ações, reações e reflexões do personagem/narrador. O enunciado valoriza inferência, não apenas informações literalmente ditas.” (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa)
Justificativa da Alternativa Correta – D) Preocupação, admiração, temor e arrependimento
- Preocupação: O eu-lírico se mostra atento ao bem-estar da flor (“Temi por sua vida”); observa sinais de que ela “não estava feliz” e toma providências para tentar salvá-la.
- Admiração: Ao “contemplar bem”, ele descobre “novidades” e a “delicada composição”, evidenciando fascínio e cuidado pela flor.
- Temor: Surge o medo da morte da flor: “Temi por sua vida.”
- Arrependimento: Ao fim, tenta devolvê-la ao jardim (“fui depositá-la no jardim onde desabrochara”), atitude típica de quem busca reparar uma falta. O arrependimento se confirma também na forma como é repreendido pelo porteiro.
Análise das Alternativas Incorretas:
- A) Não há paixão, rancor, nem êxtase no texto. Os sentimentos predominantes são de apreensão e delicadeza, não extremos emocionais.
- B) Impunidade e conforto não se evidenciam; ao contrário, há preocupação constante com o “crime”.
- C) Melancolia, inveja e irritação não aparecem. O eu-lírico não demonstra inveja de nada, e há mais afeto do que irritação.
- E) Nostalgia e dúvida não são traços presentes; a impotência pode ser sugerida, mas o conjunto não corresponde à progressão de emoções reais do texto.
Estratégias importantes: Releia trechos com atenção para perceber sentimentos subentendidos. Busque palavras que expressem afeto, angústia, ação de reparar, e desconfie de opções que tragam emoções radicais ou ausentes do texto.
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