Ao articular reflexões sobre Sérgio Sampaio, Audre Lorde e ...

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Q4131720 Não definido
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Texto 3


Em um cenário polarizado, no qual discussões fundamentais são reduzidas a disputas passionais comparáveis a torcidas de futebol, a ideia de independência segue um valor ético indispensável.

Não falo apenas da independência política ou econômica – as quais, cada qual a seu modo, possuem imenso valor –, mas daquela que se desdobra no campo do pensamento: a autonomia para refletir sem subordinação a consensos fáceis, para agir sem a necessidade de aprovação alheia.

A independência intelectual, essa condição tão rara quanto preciosa, me remete aos versos de Sérgio Sampaio em "Sinceramente", quando canta: "Não há nada mais bonito do que ser independente. E poder se conquistar, sair, chegar, assim, tão simplesmente. Não há nada mais tranquilo do que ser o que se sente. E poder amar, perder, chorar, depois ganhar, assim, tão livremente. Não há nada mais sozinho do que ser inteligente e poder cantarolar, errar, desafinar, assim, sinceramente".

É bonito bancar o que se é, ganhar, perder, mas ser fiel a si. Em "Minhas palavras estarão lá", a poeta feminista negra Audre Lorde também trouxe uma importante reflexão sobre independência, quando escreveu linhas memoráveis, que me fortalecem sempre que as leio: "Meus críticos sempre quiseram me ver sob uma determinada ótica. As pessoas fazem isso. É mais fácil lidar com um poeta, certamente com uma poeta negra, quando você a categoriza, limitando-a tanto que ela consegue preencher suas expectativas". E Lorde continua: "mas eu sempre senti que não posso ser categorizada, e esse sentimento tem sido tanto minha fraqueza quanto minha força. Tem sido minha fraqueza porque minha independência me custou o suporte de algumas pessoas. Mas, veja você, também tem sido minha força porque me dá o poder para seguir em frente".

Para mulheres negras em uma sociedade capitalista, racista e patriarcal, ser independente é um jogo de capoeira, um encontro entre a dança e a luta. Partindo de lugares vulneráveis economicamente, é preciso ginga para seguir, saber a hora de desviar do golpe, a hora de golpear, entender que o silêncio, muitas vezes, não é consenso, mas estratégia de sobrevivência. É uma dança que exige solitude, mas que projeta solidariedade, porque ao se libertar das amarras do pensamento hegemônico abre-se também espaço para que outros respirem."


RIBEIRO, Djamila. Independência ou morte: pensar de forma independente é recusar o mito da ordem e progresso. Folha de S. Paulo, 28 ago. 2025.
Ao articular reflexões sobre Sérgio Sampaio, Audre Lorde e a condição de mulheres negras, o texto constrói um percurso que preserva unidade temática. Essa organização contribui para a coerência textual porque
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