Considere as seguintes análises de Antonio Candido, em “Form...
Leia o poema abaixo, de Gregório de Matos Guerra:
À negra Margarida que acariciava um mulato
1 Carina, que acariais
aquele Senhor José
ontem tanga de guiné,
hoje Senhor de Cascais:
vós, e outras catingas mais,
outros cães, e outras cadelas
amais tanto as parentelas,
que imagina o vosso amor,
que em chamando ao cão Senhor
Ihe dourais suas mazelas.
2 Longe vá o mau agouro;
tirai-vos desse furor,
que o negro não toma cor,
e menos tomará ouro:
quem nasceu de negro couro,
sempre a pintura o respeita
tanto, que nunca o enfeita
de outra cor, pois fora aborto,
é, como quem nasceu torto,
que tarde, ou nunca endireita.
3 A nenhum cão chamais tal,
Senhor ao cão? isso não:
que o Senhor é perfeição,
e o cão é perro neutral:
do dilúvio universal
a esta parte, que é
desde o tempo de Noé,
gerou Cão filho maldito
negros de Guiné, e Egito,
que os brancos gerou Jafé.
4 Gerou o maldito Cão
não só negros negregados,
mas como amaldiçoados
sujeitos à escravidão:
ficou todo o canzarrão
sujeito a ser nosso servo
por maldito, e por protervo;
e o forro, que inchar se quer,
não pode deixar de ser
dos nossos cativos nervo.
5 Os que no direito expertos
penetram termos tão finos,
bem sabem, que os libertinos
distam muito dos libertos:
se há brancos tão inexpertos,
que dão benignos, ou bravos
alforrias por agravos:
os que destes são nascidos,
por libertinos são tidos,
porém são filhos de escravos.
6 O filho da minha escrava,
e dos meus vizinhos velhos,
que eu vejo pelos artelhos,
que ontem soltaram da trava;
porque tanto se deprava
com tal brio, e pundonor,
que quer Ihe chamem Senhor:
se consta o seu senhorio
de um bananal regadio,
que cavou com seu suor!
7 E se são justos os brios
daqueles, que escravos têm,
nisso a mor baixeza vêm,
pois têm por servos seu tios:
e se algum com desvarios
diz, que o ter por natural
sangue de branco o faz tal,
nisso a condenar-se vêm,
porque se o branco faz bem,
como o negro não faz mal?
8 Tomem de leite um cabaço,
lancem-lhe um golpe de tinta,
a brancura fica extinta,
todo o leite sujo, e baço:
assim sucede ao madraço,
que com a negra se tranca;
do branco o leite se arranca,
da negra a tinta se entorna,
o leite negro se torna,
e a tinta não se faz branca.
9 Mas tornando a vós, Carira,
que ao negro Senhor chamais,
porque é Senhor de Cascais,
quando vos casca, e atira:
crede, amiga, que é mentira
ser branco um negro da Mina,
nem vós sejais tão menina,
que creiais, que ele não crê,
que é negro, pois sempre vê
em casa a mãe Caterina.
10 Dizei ao Vosso Senhor
entre um, e outro carinho,
que o negro do seu focinho
é cor, que não toma cor:
e que dê graças a Amor
que vos pôs os olhos tortos
para não ver tais abortos,
mas que há de esbrugar mantenha
daqui até que Deus venha
julgar os vivos, e mortos.
(RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: dos primeiros cronistas aos últimos românticos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2014, p. 115-118.)
Considere as seguintes análises de Antonio Candido, em “Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos” (2000), sobre poetas da literatura brasileira:
I. Nele, o lirismo é pura expressão da sensibilidade, desligada de qualquer pretensão mais afoita. Saudade, ternura, natureza e desejo são modulados numa frauta singela. Extremamente romântico na fuga à abstração, à generalização, sempre transpõe no poema um sentimento imediato, banhando-se naquela magia desde então ligada ao seu nome. O senso dramático da vida reponta, logo atenuado pela vocação elegíaca e o arrepio sensual. A tristeza, nele, não impede o encantamento da carne; aumenta-o, pelo contrário, como acontece nos temperamentos voluptuosos. Por isso, contribui decisivamente, com seu grande talento poético, para fixar um de seus aspectos românticos: a excitação dos sentidos, bastante viva para despertar e envolver a imaginação e, todavia, mascarada por jogo hábil de negaceios: ora a tristeza da posse inatingível, ora a ironia da possa disfarçada, ora o falso pudor da posse protelada. E, dominando tudo, a capacidade quase virtuosística de elaborar imagens delicadas, a fim de atenuar as consequências finais da corte amorosa. Depois dele - na obra de Castro Alves – a paixão aparecerá mais próxima à natureza, e o drama do espírito não mais sufocará a fruição das coisas.
II. Se as imagens recorrentes valem alguma coisa para entender os poetas, a presença da rocha aponta nele para um anseio profundo de encontrar o alicerce, ponto básico de referência. Quando quer localizar um personagem, é perto ou sobre uma rocha que o situa. Na pedra, quase tanto quanto nos troncos, grava os seus lamentos. Para imagem da dor ou sofrimento, não quer outro símile. Todavia, é como antítese que mais aparecem, servindo para contrastar a ternura do sentimento. Nas Obras a um ciclo de oposição sentimento-rocha, brandura-dureza, em que vem se exprimir, segundo a convenção lírica, a sua sensibilidade profunda.
III. Em nossa literatura é dos maiores poetas, dentro os sete ou oito que trouxeram alguma coisa à nossa visão de mundo. Com ele a pesquisa neoclássica da natureza alcança a expressão mais humana e artisticamente mais pura. A recuperação da naturalidade, cujos artífices foram os primeiros árcades, encontra nele a nota fundamental humana. Ao contrário da tradição impessoal do Cultismo e da delegação poética arcádica, vemos uma personalidade que se revela, mas, ao mesmo tempo, constrói-se no plano literário, que considera a si mesmo como objeto legítimo da arte, e por isso se desvenda, nas suas penas, no seu gosto, em toda a escavação profunda e sinuosa da confidência; mas só desvenda para atingir a imagem eloquente, a frase bela que permite elaborar uma expressão artística, ou seja, uma estilização de si mesma.
Assinale a alternativa CORRETA que indica, respectivamente, os poetas de que tratam as análises I, II e III.