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Q4197206 Português
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As tempestades sempre passam


    As tempestades vêm, caem, destroem e passam. Sempre passam. Umas demoram mais, outras são quase tão rápidas quanto a queda de um raio, mas passam. Passam como o vento passa, como as marés se repetem, sempre outras em seu movimento de subir e descer. Passam como o ciclo das mulheres, como o corpo que se abre, como a vida que nasce de dentro do ventre e ilumina este mundo no primeiro choro saudando a luz.

    As tempestades passam e deixam no céu a transparência que me fala de outros mundos, de outras dimensões, de momentos esquecidos que precisam ser resgatados, e de outros não vividos, que se perdem na distância, além de qualquer possibilidade, até mesmo para o sonho. 

    As tempestades passam e dão lugar a um sol mais limpo e mais brilhante, que faz mais alegre o dia, para dar lugar a uma lua que, se estiver cheia, é uma ode impressa no céu, mas que, se estiver crescente, é um soneto, e é o momento mais terno e mais suave de todos os que a natureza dá.

    Pouca coisa se compara à noite depois duma tempestade. Pouca coisa tem mais poesia do que o céu limpo mudando de cor, até atingir o azul profundo, onde a lua se deita, como uma cimitarra de ouro, apontando os rumos e as rotas das vidas de cada um de nós.

    A lua depois da chuva é poesia pura, é o encontro da alma com o eterno, do atávico com o futuro, como se todos fôssemos um único corpo, e o universo não se fragmentasse em estrelas e cometas rodeados de planetas, onde, algumas vezes, a vida se faz, sem explicação capaz de nos explicar, mas real como cada um de nós, como cada corpo e cada pensamento. (...)


MENDONÇA, Antônio Penteado. As tempestades sempre passam. Crônicas da cidade. Disponível em .<https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2021/11/28/a
s-tempestades-sempre-passam/>.


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