As tempestades vêm, caem, destroem e
passam. Sempre passam. Umas demoram mais,
outras são quase tão rápidas quanto a queda de
um raio, mas passam. Passam como o vento
passa, como as marés se repetem, sempre outras
em seu movimento de subir e descer. Passam
como o ciclo das mulheres, como o corpo que
se abre, como a vida que nasce de dentro do
ventre e ilumina este mundo no primeiro choro
saudando a luz.
As tempestades passam e deixam no céu
a transparência que me fala de outros mundos,
de outras dimensões, de momentos esquecidos
que precisam ser resgatados, e de outros não
vividos, que se perdem na distância, além de
qualquer possibilidade, até mesmo para o
sonho.
As tempestades passam e dão lugar a um
sol mais limpo e mais brilhante, que faz mais
alegre o dia, para dar lugar a uma lua que, se
estiver cheia, é uma ode impressa no céu, mas
que, se estiver crescente, é um soneto, e é o
momento mais terno e mais suave de todos os
que a natureza dá.
Pouca coisa se compara à noite depois
duma tempestade. Pouca coisa tem mais poesia
do que o céu limpo mudando de cor, até atingir
o azul profundo, onde a lua se deita, como uma
cimitarra de ouro, apontando os rumos e as
rotas das vidas de cada um de nós.
A lua depois da chuva é poesia pura, é o
encontro da alma com o eterno, do atávico com
o futuro, como se todos fôssemos um único
corpo, e o universo não se fragmentasse em
estrelas e cometas rodeados de planetas, onde,
algumas vezes, a vida se faz, sem explicação
capaz de nos explicar, mas real como cada um
de nós, como cada corpo e cada pensamento.
(...)
MENDONÇA, Antônio Penteado. As tempestades
sempre passam. Crônicas da cidade. Disponível em
.<https://cronicasdacidade.com.br/cronicas/2021/11/28/a
s-tempestades-sempre-passam/>.
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