Ao afirmar que “algumas palavras têm que doer” (4º parágraf...

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Q2398452 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.



      Entre as sugestões que vieram da editora sobre meu novo livro, havia a de trocar “índios” por “indígenas”. Sempre fui um defensor do politicamente correto. Algumas mudanças na ética verbal, porém, me parecem contraproducentes. Em certos momentos dos anos 90, “favela” virou “comunidade”. “Favelado” era um termo pejorativo e é compreensível que os moradores dessas áreas não quisessem ser chamados assim, mas mudar para “morador de comunidade”. Mas embora a mudança amacie na semântica, não leva água encanada, esgoto e luz para ninguém. Pelo contrário.

     A gente ouve “comunidade” e dá a impressão de que aquelas pessoas estão todas de mãos dadas fazendo uma ciranda em torno da horta orgânica, não apinhando-se em condições sub-humanas, sem esgoto, asfalto, educação, saúde. Talvez fosse bom deixarmos o incômodo nos tomar toda vez que disséssemos ou ouvíssemos “favela” ou “favelados”. Nosso objetivo deveria ser dar condições de vida decente para aquela gente, não nos sentirmos confortáveis ao mencioná-la.

    O mesmo vale para “morador em situação de rua”. Parece que o cara teve um problema pra voltar pra casa numa terça, dormiu “em situação de rua” num ponto de ônibus e na quarta vai retornar ao conforto do lar. É mentira. A pessoa que mora na rua tá ferrada, é alguém que perdeu tudo na vida, até virar “mendigo”. “Mendigo” é um termo horrível não porque as vogais e consoantes se juntem de forma deselegante, mas pelo que ele nomeia: gente que dorme na calçada, revira lixo pra comer, não tem sequer acesso a um banheiro. Mas quando a gente fala “morador em situação de rua” vem junto o mesmo morninho no coração de “comunidade”: essa situação, pensamos, é temporária. Vai mudar. Logo, logo, ele estará em outra.

     Não, não estará se não nos indignarmos com a indigência, e agirmos. Algumas palavras têm que doer, porque a realidade dói. Do contrário, a linguagem deixa de ser uma ferramenta que busca representar a vida como ela é e se torna um tapume nos impedindo de enxergá-la. Sobre “índios” e “indígenas”, li alguns textos. Os argumentos giram em torno do fato de “índio” ter se tornado um termo pejorativo, ligado aos preconceitos que os brancos sempre tiveram com os povos originários da América: preguiçosos, atrasados, primitivos. Tá certo. Mas o problema, pensei, não está no termo “índio”, mas no preconceito do homem branco.


(PRATA, Antonio. As palavras e as coisas. Folha de São
Paulo, 03.07.2022. Adaptado).
Ao afirmar que “algumas palavras têm que doer” (4º parágrafo), o autor do texto
Alternativas

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Tema central: Esta é uma questão de interpretação de texto, especificamente sobre a posição do autor diante do papel social e emocional dos termos usados para nomear situações e grupos sociais.

Justificativa da alternativa correta (A):
A alternativa A está correta porque o autor argumenta que certas palavras, mesmo carregadas de desconforto, devem ser mantidas para não mascarar a dura realidade de determinados grupos. Ele diz que suavizar os termos (“favela” para “comunidade” ou “mendigo” para “morador em situação de rua”) pode atenuar a percepção do problema, tornando-nos insensíveis e menos propensos à ação. O enfoque está em mostrar a realidade como ela é, provocando incômodo necessário para promover mudanças, não para suavizar ou esconder.

Pela norma-padrão da Língua Portuguesa e pelas regras de interpretação textual (como afirmam autores como Bechara e a gramática de Cunha & Cintra), a resposta exige atenção ao subtexto — ou seja, perceber além das palavras superficiais e analisar o que o autor defende ao longo do texto, incluindo expressões como “algumas palavras têm que doer”.

Análise das alternativas incorretas:

B – Está incorreta, pois o autor é claro ao afirmar a necessidade de indignação frente à realidade. Ele não defende comodismo, mas sim ação e consciência social.

C – Essa alternativa erra ao sugerir que o autor defende linguagem “mais agressiva”. Ele não defende agressividade, mas sim clareza e honestidade na representação das condições sociais.

D – Ainda que “repensar o uso das palavras” faça parte do texto, o autor não foca em evitar machucar os que sofrem, mas sim estimular o incômodo necessário à busca de mudanças concretas. Ele quer evitar o “morninho no coração” provocado por termos amenizados.

Estratégia de resolução: Sempre que a questão pedir a opinião do autor, foque nos verbos de opinião, exemplos dados e nas justificativas ao longo do texto. Atenção a palavras que marcam oposição ou reforço de ideias (“pelo contrário”, “mas”, “não”).

Dica de concurso: Evite alternativas que distorçam a posição do autor por meio de generalizações ou mudanças de tom. Leia os trechos mais enfáticos com atenção redobrada!

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insiste na ideia de que certos termos devem ser mantidos como são, pois assim teremos uma noção mais clara da condição de vida de certas pessoas: correto.

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