Peguei o trem. O trem da vida. Lento, tranquilo, feito reticências. A
vida, voraz, intrépida, repleta de exclamações e interrogações. Só sei que
iniciei a viagem, num dia qualquer. Qualquer? Não. No meu dia, ou melhor,
naquele dia em que deixei aquela casa escondida no ventre de minha mãe,
naquele planetinha tão pequeno que, aos poucos, parecia que estava ficando
menor do que eu mesmo. Contudo aquele até então ínfimo planetinha
carregava consigo uma imensidão de palavras, de anseios, de amor,
palavras de afeto, por pontuações diversas. Todas em um único cômodo,
apertado, escuro, no entanto sentia-me protegido e ao mesmo tempo
querendo conhecer o que estava lá fora.
Olhar quem sussurrava para que eu ouvisse. “Mamãe já te ama antes
mesmo de nascer.” Isso. Nascer. Nasci. Agora eu era aquele menino, era
aquele menino travesso, tinha fantasias, meus cabelos em cachos
castanhos. No trem. No trem da vida. Não percebo mais fantasias, já não tão
travesso. Agora quase um homem feito, feito Sabino em busca daquele
menino no espelho, pois os sonhos de criança ficaram guardados na gaveta
das memórias. Memórias de outros tempos, outros vagões, outras
paisagens.
Entretanto continuava naquele trem. O trem da vida. A paisagem já
meio obscura, repleta de interrogações, interpelações que me levavam num
viver intenso, pois o agora é que me importava. Ao mesmo tempo, aquela
paisagem levava-me a um vulcão em erupção, num apocalipse de emoções,
num despertador em descontrole a me convidar para um “Carpe diem”. Por
quê? Do nada já estava em outro vagão.
Porém no mesmo trem. O trem da vida. Agora já era um homem feito.
Era mesmo? Só sei que a paisagem era não tão voraz, ainda que audaz,
pois o dia se chamava responsabilidade, o sol era o cartão de ponto de meus
afincos, a fim de realmente me tornar um homem feito. Sim, não era um
homem feito. Agora eu que conduzia a ordem naquele vagão. Eu era
passageiro, mas também bilheteiro, até maquinista. Por quê? A paisagem
era mais completa e complexa do que se podia imaginar. Outros estavam ali,
outros dependiam de mim. Outros me fizeram amar, pois me impulsionavam
a não parar. Por quê? Porque estávamos todos no trem.
O trem da vida. Agora já me sentia um homem feito, mas ao mesmo
tempo desfeito, desfazendo-me aos poucos sem me preocupar tanto com o
tempo. Na paisagem, a noite, o dia, tudo se tornara grisalho, distante,
nostálgico… o olhar mais distante a contar aqueles vagões por onde
passara. A poltrona, o teto, o piso, tudo naquele vagão tinha uma história,
lembranças de melancolias, mas também de regozijos, pelos momentos vividos, por todas as emoções que o destino me propusera. Agora os ombros
mais cansados, os pés, às vezes, mais inchados. Sem problema que me
trouxesse quaisquer frustrações. De um andarilho nos vagões do destino,
tornei-me um contador de histórias. Por quê? Porque os vagões escreveram
minha história. Ou melhor, a história do trem. O trem da vida.
(Tulius Mendonça)
O título do texto, Estações, pode ser entendido como:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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