Considerando a reflexão sobre a leitura e construção de sent...

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Q4115299 Pedagogia
A solidão amiga


A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão apagada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão… O que mais você deseja é não estar em solidão…

Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas. De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão… A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro “A chama de uma vela”, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Elas acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior. Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a sua solidão?” Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim.

(ALVES, Rubem. Correio Popular. Em: 30/06/2002. Adaptado.)
Considerando a reflexão sobre a leitura e construção de sentidos no espaço escolar, assinale a afirmativa INCORRETA. 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: O enunciado exige identificar a afirmativa INCORRETA sobre leitura no espaço escolar. O ponto decisivo é que a concepção pedagógica de leitura não admite sentido único previamente fixado; por isso, a alternativa B, que defende exatamente essa ideia, deve ser marcada.

Tema central: Concepção escolar de leitura
Análise das alternativas
A
Errada
Não deve ser marcada porque seu conteúdo é compatível com a concepção de leitura cobrada. Releitura, apropriação crítica e interação com o texto são práticas coerentes com a construção de sentidos.
B
Certa
A alternativa B é o gabarito porque contraria o critério pedagógico adotado para a leitura na escola. Ela afirma que as aulas de língua portuguesa devem privilegiar um único sentido do texto e desconsiderar os fatores que participam da significação. Isso é incompatível com a concepção de leitura como interação entre leitor, texto e contexto, na qual o sentido é construído e não simplesmente imposto como resposta única previamente fixada.
C
Errada
Não deve ser marcada porque a afirmação é compatível com a ideia de autonomia leitora em formação. Ela reconhece que o aluno pode construir sentidos, mas muitas vezes ainda depende de resposta pronta ou da validação do professor.
D
Errada
Não deve ser marcada porque está de acordo com a noção de que leitura vai além da decodificação. A alternativa vincula leitura significativa a conhecimento, prazer, releitura do mundo e posicionamento diante da vida.
Pegadinha da questão
O ponto central é perceber que a alternativa B contraria a leitura como construção de sentidos. As demais não devem ser descartadas por imperfeições de redação ou digitação, já que seu conteúdo está alinhado ao critério cobrado.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões sobre leitura escolar, verifique se a alternativa trata o sentido como construção em interação ou como resposta única pronta.
  • Quando o enunciado pedir a INCORRETA, primeiro identifique o princípio pedagógico central e depois procure a opção que o contradiz frontalmente.
  • Não elimine alternativa por problema gramatical ou digitação se o conteúdo conceitual estiver alinhado ao critério cobrado.

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