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Q3736958 Português
Em seus inúmeros e instigantes ensaios sobre a natureza do subdesenvolvimento, Celso Furtado alerta para os riscos de que dinâmicas de modernização, embaladas pelo ritmo vertiginoso da diversificação do consumo, prevaleçam sobre trajetórias de mudança estrutural, estas capazes de romper efetivamente com nossa condição periférica e seus corolários. |...] É ainda Furtado quem nos recorda que nas economias desenvolvidas, notadamente nas europeias, o grande diferencial da expansão do capitalismo do pós-guerra foi ter promovido um processo de equalização das oportunidades, o que levou sociedades a se tornarem mais iguais, mais homogeneas. [...] A politica social dos anos 2000 apostou no aprofundamento e diversificação do consumo de massa e na intervenção do Estado, visando lastrear a acumulação financeira também na esfera da reprodução social. Essa dinâmica se acelera e se consolida, inibindo trajetórias de mudança estrutural, na contramão do recomendado por pensadores latino-americanos que, como Celso Furtado, idealizaram a superação do subdesenvolvimento. O binômio fortalecimento do mercado interno e industrialização foi substituido por reprimarização e financeinzação, com a preservação da nossa arraigada heterogeneidade estrutural.
(Adaplado de: LAVINAS, Lena; GENTIL, Denise L. Brasil anos 2000: a politica social sob regência da financeirização. Novos Estudos, v.37,n.2, p. 191-211, 2018)
A contradição fundamental da trajetória do desenvolvimento econômico brasileiro mais recente de que trata o texto acima é: 
Alternativas

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a oposição textual entre o aprofundamento e a diversificação do consumo de massa e a ausência de mudança estrutural. O texto afirma literalmente que a política social dos anos 2000 apostou nesse consumo e que essa dinâmica foi "inibindo trajetórias de mudança estrutural" e preservando a "arraigada heterogeneidade estrutural"; por isso, a alternativa correta é a que reconhece consumo ampliado sem superação da estrutura desigual.

Tema central: consumo sem mudança estrutural
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma exatamente o contrário do texto. O texto diz que a dinâmica dos anos 2000 foi "inibindo trajetórias de mudança estrutural"; portanto, não houve a mudança estrutural afirmada na alternativa. Além disso, a alternativa fala em retração de atividades ligadas ao setor primário e da financeirização, mas o texto registra "reprimarização e financeirização", isto é, movimento oposto.
B
Errada
Está errada porque transforma em superação do subdesenvolvimento aquilo que o texto apresenta como manutenção da condição periférica. O texto afirma que a mudança estrutural seria a capaz de "romper efetivamente com nossa condição periférica", mas mostra que ela foi inibida. Também registra a "preservação da nossa arraigada heterogeneidade estrutural", o que exclui a ideia de que o país tenha deixado a condição periférica.
C
Errada
Está errada por inverter o sentido do diagnóstico textual. A alternativa fala em diminuição do setor primário e da financeirização e em fortalecimento do mercado interno e da industrialização, mas o texto afirma o contrário: "O binômio fortalecimento do mercado interno e industrialização foi substituído por reprimarização e financeirização". Ela confunde o modelo recomendado por pensadores como Celso Furtado com o que efetivamente ocorreu.
D
Errada
Está errada porque atribui à política social um efeito incompatível com o texto. O texto diz que ela ocorreu "visando lastrear a acumulação financeira também na esfera da reprodução social", o que afasta qualquer leitura de diminuição dos lucros de bancos e demais entidades financeiras. Também não há base textual para afirmar direcionamento de recursos para a indústria; ao contrário, o texto informa substituição do binômio mercado interno/industrialização por reprimarização e financeirização.
E
Certa
A alternativa E está correta porque traduz a tese do texto: houve ampliação do consumo de massa no período descrito, mas isso não produziu transformação estrutural do país. O fundamento está na sequência textual que associa a política social dos anos 2000 ao "aprofundamento e diversificação do consumo de massa" e, ao mesmo tempo, afirma que essa dinâmica atuou "inibindo trajetórias de mudança estrutural" e preservando a "arraigada heterogeneidade estrutural". Embora a alternativa use a expressão "desigualdades sociais brasileiras", essa formulação é compatível com a ideia textual de manutenção da estrutura desigual.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre modernização com aumento do consumo e mudança estrutural efetiva. O texto contrapõe essas duas coisas: o consumo cresceu, mas isso não significou superação do subdesenvolvimento nem redução da estrutura desigual.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique se o texto está descrevendo um avanço aparente ou uma transformação efetiva; aqui, consumo ampliado não equivale a mudança estrutural.
  • Dê peso máximo aos trechos de contraste, como os que opõem consumo de massa e mudança estrutural; eles normalmente definem a resposta.
  • Elimine alternativas que trocam o diagnóstico do texto pelo ideal defendido por autores citados; recomendação não é o mesmo que realização histórica.

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