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Q2381809 Português
Não nascemos prontos...


Mario Sérgio Cortella


          O sempre surpreendente Guimarães Rosa dizia: "O animal satisfeito dorme". Por trás dessa aparente obviedade está um dos mais profundos alertas contra o risco de cairmos na monotonia existencial, na redundância afetiva e na indigência intelectual. O que o escritor tão bem percebeu é que a condição humana perde substância e energia vital toda vez que se sente plenamente confortável com a maneira como as coisas já estão, rendendo-se à sedução do repouso e imobilizando-se na acomodação.

         A advertência é preciosa: não esquecer que a satisfação conclui, encerra, termina; a satisfação não deixa margem para a continuidade, para o prosseguimento, para a persistência, para o desdobramento. A satisfação acalma, limita, amortece.

        Por isso, quando alguém diz "Fiquei muito satisfeito com você" ou "Estou muito satisfeita com seu trabalho", é assustador. O que se quer dizer com isso? Que nada mais de mim se deseja? Que o ponto atual é meu limite e, portanto, minha possibilidade? Que de mim nada mais além se pode esperar? Que está bom como está? Assim seria apavorante; passaria a ideia de que desse jeito já basta. Ora, o agradável é alguém dizer "seu trabalho (ou carinho, ou comida, ou aula, ou texto, ou música etc) é bom, fiquei muito insatisfeito e, portanto, quero mais, quero continuar, quero conhecer outras coisas".

      Um bom filme não é exatamente aquele que, quando termina, nos deixa insatisfeitos, parados, olhando, quietos, para a tela, enquanto passam os letreiros, desejando que não cesse? Um bom livro não é aquele que, quando encerramos a leitura, permanece um pouco apoiado no colo e nos deixa absortos e distantes, pensando que não poderia terminar? Uma boa festa, um bom jogo, um bom passeio, uma boa cerimônia não é aquela que queremos que se prolongue? Com a vida de cada um e de cada uma também tem de ser assim; afinal de contas, não nascemos prontos e acabados. Ainda bem, pois estar satisfeito consigo mesmo é considerar-se terminado e constrangido ao possível da condição do momento. 

          Quando crianças (só as crianças?), muitas vezes, diante da tensão provocada por algum desafio que exigia esforço (estudar, treinar, emagrecer etc), ficávamos preocupados e irritados, sonhando e pensando: Por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas? Bela e ingênua perspectiva. É fundamental não nascermos sabendo nem prontos; o ser que nasce sabendo não terá novidades, só reiterações. Somos seres de insatisfação e precisamos ter nisso alguma dose de ambição; todavia, ambição é diferente de ganância, dado que o ambicioso quer mais e melhor, enquanto que o ganancioso quer só para si próprio.

         Nascer sabendo é uma limitação porque obriga a apenas repetir e, nunca, a criar, inovar, refazer, modificar. Quanto mais se nasce pronto, mais se é refém do que já se sabe e, portanto, do passado; aprender sempre é o que mais impede que nos tornemos prisioneiros de situações que, por serem inéditas, não saberíamos enfrentar.

        Diante dessa realidade, é absurdo acreditar na ideia de que uma pessoa, quanto mais vive, mais velha fica; para que alguém quanto mais vivesse, mais velho ficasse, teria de ter nascido pronto e ir se gastando...

       Isso não ocorre com gente, mas com fogão, sapato, geladeira. Gente não nasce pronta e vai se gastando; gente nasce não-pronta e vai se fazendo. Eu, no ano 2000, sou a minha mais nova edição (revista e, às vezes, um pouco ampliada); o mais velho de mim (se é o tempo a medida) está no meu passado, não no presente.

        Demora um pouco para entender tudo isso; aliás, como falou o mesmo Guimarães, "não convém fazer escândalo de começo; só aos poucos é que o escuro é claro"... 



São Paulo, 28 de setembro de 2000.
https://www1.folha.uol.com.br 

De acordo com o autor do texto, é uma causa da monotonia existencial:  
Alternativas

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Comentário – Interpretação de Texto

Tema central: Interpretação de texto – identificação de causa e efeito.

A questão exige que o candidato compreenda a ideia principal defendida por Mario Sérgio Cortella: a satisfação plena é responsável pela monotonia existencial.

Segundo o texto, Cortella explica que quando nos sentimos satisfeitos com a forma como as coisas estão, deixamos de buscar o novo, de expandir nossas potencialidades e, assim, caímos na estagnação. Os trechos “a satisfação conclui, encerra, termina...” e “a satisfação acalma, limita, amortece” evidenciam a relação de causalidade: a satisfação leva à monotonia existencial, pois faz com que não desejemos mais progresso ou transformação.

Alternativa correta: C) Satisfação.

Justificativa: O comando pede a causa da monotonia existencial, e o próprio texto descreve, em tom crítico, que aquilo que “limita e amortece” nosso desenvolvimento é a satisfação concluída: não deixa margem para continuidade nem para novos desafios, gerando estagnação (monotonia existencial).

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Ambição – Pelo contrário, o autor diferencia ambição (que impulsiona a busca por mais e melhor) de ganância. Portanto, não causa monotonia.
  • B) Tensão – É apresentada como algo comum diante de desafios, e não como causa de monotonia, mas sim como movimento e desconforto produtivo.
  • D) Desafio – O desafio move o ser humano, promove crescimento e impede monotonia, conforme relatado no texto.
  • E) Esforço – O esforço surge como resposta a desafios e à busca pelo melhor, afastando, assim, a monotonia.

Estratégia de resolução: Busque sempre palavras-chave que expressem relações de causa (como “porque”, “pois” ou termos que indicam consequência direta). Note que alternativas que representam ação, movimento ou incômodo não apontam para monotonia, mas, sim, para crescimento ou transformação.

Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra, a compreensão do sentido global e das relações implícitas (como causa e efeito) é essencial na leitura de textos em provas. Essa análise evita pegadinhas comuns de descontextualizar o termo central do enunciado.

Resumo: No texto, satisfação é a causa da monotonia existencial porque representa o fim do movimento e da busca por crescimento.

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 "O animal satisfeito dorme"

GAB: C

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