não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes...

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Q3736919 Português
Atenção: Leia o trecho inicial do conto “O escrivão Coimbra”, de Machado de Assis, para responder à questão.

    Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, —ou depois, — um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
    
        Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
    
        Não deixou logo a irmandade; a esposa pode conté-lo no exercicio do cargo de mesario e levava-o as festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religido. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
   
        Aos sessenta anos, ja não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a principio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
    
        Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o nimero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, volume 11. São Paulo: Companhia das Letras, 1998) 
não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes.
Em relação ao trecho que o sucede, a oração sublinhada expressa ideia de 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho "não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes.", a oração reduzida de gerúndio apresenta a circunstância que motiva a promessa; o sentido admitido na base é equivalente a "como não vinha a sorte grande" ou "porque não vinha a sorte grande". Por isso, a relação semântica é de causa, o que confirma a alternativa B.

Tema central: valor semântico oracional
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque concessão exigiria contraste do tipo "embora não viesse a sorte grande". No trecho, a falta da sorte grande não contrasta com a promessa; ela funciona como razão para essa promessa.
B
Certa
A alternativa B está correta porque a oração sublinhada responde à pergunta implícita "por que prometia não comprar mais bilhetes?": porque a sorte grande não vinha. A própria base admite a reescrita por "como não vinha a sorte grande" ou "porque não vinha a sorte grande", sem alteração relevante de sentido. O contexto também confirma essa leitura, pois a promessa surge após a frustração de não ganhar.
C
Errada
Está errada porque consequência seria efeito produzido pela oração principal. Aqui, a ordem lógica é inversa: o fato de a sorte grande não vir explica a promessa; não é resultado dela.
D
Errada
Está errada porque condição envolveria hipótese, como em "se não viesse a sorte grande". A base afasta essa leitura: o texto não apresenta hipótese futura, mas um fato reiterado que motiva o comportamento do personagem.
E
Errada
Está errada porque oposição pressupõe contraste entre ideias. No período, não há confronto semântico entre as orações; há encadeamento de motivo e ação. A negação em "não vindo" não cria, por si só, oposição.
Pegadinha da questão
A banca explora a forma reduzida de gerúndio para induzir confusão com condição, como se o trecho pudesse ser lido automaticamente como "se não viesse". O contexto, porém, mostra fato reiterado e causal, não hipótese.
Dica para questões semelhantes
  • Pergunte qual oração explica a outra: se uma responde a "por que?", o valor tende a ser causal.
  • Teste uma reescrita fiel com "porque" ou "como"; se o sentido se mantiver, há forte indício de causa.
  • Não classifique a oração reduzida só pela forma verbal; verifique se o contexto apresenta fato real ou hipótese.
  • Observe a direção da relação lógica: causa explica o fato seguinte; consequência decorre dele.

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Comentários

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GABARITO: B

O fato de: não vindo a sorte grande

Fez com que:  prometia não comprar mais bilhetes.

Prometia não comprar mais bilhetes, visto que a sorte grande não vinha.

pra quem marcou condicional igual a mim, verás que não faz sentido quando trocamos por uma oração desenvolvida.

B

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