O narrador recorre a uma antítese em: 

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Q3736914 Português
Atenção: Leia o trecho inicial do conto “O escrivão Coimbra”, de Machado de Assis, para responder à questão.

    Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, —ou depois, — um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
    
        Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
    
        Não deixou logo a irmandade; a esposa pode conté-lo no exercicio do cargo de mesario e levava-o as festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religido. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
   
        Aos sessenta anos, ja não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a principio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
    
        Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o nimero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, volume 11. São Paulo: Companhia das Letras, 1998) 
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Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a antítese como oposição semântica de ideias no interior do enunciado. No trecho “essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça.”, os verbos “crer” e “descrer” formam oposição lexical direta, o que caracteriza a figura e sustenta o gabarito C.

Tema central: identificação de antítese
Análise das alternativas
A
Errada
O trecho reúne duas ações negadas — “não buscou arrastar outros” e “nem obstruir o caminho da oração” —, mas isso não cria oposição entre ideias contrárias. Há coordenação de comportamentos recusados, não contraste antitético. A presença de “não” e “nem” não basta para caracterizar antítese.
B
Errada
A alternativa traz apenas uma avaliação isolada da cena como “melancólicos”. Não aparece, dentro do próprio trecho reproduzido na opção, nenhum termo ou ideia oposta que forme contraste. O texto mais amplo até apresenta depois “Bem considerado, é alegre;”, mas esse elemento está fora da alternativa; portanto, a antítese não está nela.
C
Certa
A alternativa C está correta porque apresenta oposição explícita entre “crer” e “descrer”, isto é, entre crença e descrença, no próprio trecho reproduzido. Essa aproximação de termos de sentido contrário produz o contraste semântico que define a antítese.
D
Errada
O trecho apenas descreve a ação do ancião escolhendo um número na expectativa da “sorte grande amanhã”. Não há par de palavras ou ideias semanticamente opostas. Ler nisso uma oposição entre velhice e futuro seria projetar um contraste que o enunciado não formula como antítese.
E
Errada
A passagem relata a influência da esposa sobre a conduta do personagem: ela “pôde contê-lo” e “levava-o às festas do santo”. Isso constitui sequência narrativa e causal, não oposição semântica estruturante. No contexto, “contê-lo” e “levava-o” não funcionam como antônimos nem produzem antítese.
Pegadinha da questão
A banca explora principalmente duas confusões reais: tomar simples negação por antítese e usar o contexto externo à alternativa para enxergar contraste onde o trecho isolado não o traz. Por isso, A e B podem atrair quem não verifica se a oposição está explicitamente dentro da própria opção.
Dica para questões semelhantes
  • Procure, no trecho da alternativa, um par de termos ou ideias de sentido contrário; sem essa polaridade, não há antítese.
  • Não confunda negação com oposição semântica: “não”, “nem” e verbos negativos podem apenas somar recusas.
  • Julgue a alternativa pelo que ela efetivamente reproduz; contraste presente no texto fora da opção não valida a resposta.

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Comentários

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Crer e descrer

crer / descrer

C

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