No trecho Uma coisa não vai sem outra. (2° parágrafo), o nar...

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Q3736913 Português
Atenção: Leia o trecho inicial do conto “O escrivão Coimbra”, de Machado de Assis, para responder à questão.

    Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, —ou depois, — um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.
    
        Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.
    
        Não deixou logo a irmandade; a esposa pode conté-lo no exercicio do cargo de mesario e levava-o as festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religido. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres.
   
        Aos sessenta anos, ja não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a principio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete.
    
        Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o nimero e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.

(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, volume 11. São Paulo: Companhia das Letras, 1998) 
No trecho Uma coisa não vai sem outra. (2° parágrafo), o narrador ressalta que 
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Gabarito: A

Fundamento decisivo: No encadeamento “Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra.”, a expressão “uma coisa não vai sem outra” retoma “fé” e “esperança” e estabelece entre elas vínculo de coexistência, o que sustenta o gabarito A.

Tema central: fé e esperança
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A traduz com fidelidade o sentido do trecho, porque o narrador afirma primeiro a presença de ambos os elementos no personagem — fé e esperança — e, em seguida, diz que “Uma coisa não vai sem outra”, isto é, apresenta essas duas noções como associadas e inseparáveis no contexto.
B
Errada
Está errada porque contradiz diretamente o texto. O narrador nega a ausência dos dois elementos: “Não era a fé que faltava” e “Também não era a esperança”. Portanto, não se pode dizer que fé e esperança estejam ausentes.
C
Errada
Está errada porque introduz uma relação de prejuízo entre esperança e fé que o trecho não traz. A expressão “Uma coisa não vai sem outra” indica associação, acompanhamento, e não atrapalhamento.
D
Errada
Está errada pelo mesmo motivo semântico da alternativa C. O texto não estabelece oposição, impedimento nem conflito entre fé e esperança; apenas mostra que uma acompanha a outra.
E
Errada
Está errada porque desloca o foco do trecho. A frase comentada não trata da dependência da sorte em relação à fé e à esperança, mas da relação entre “fé” e “esperança”, retomadas pelos termos “uma coisa” e “outra”.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: a leitura apressada da dupla negação, que pode fazer o candidato entender ausência de fé e esperança, e a tentação de levar a interpretação para o tema geral da loteria, embora o trecho destacado trate especificamente da associação entre “fé” e “esperança”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando houver expressão como “uma coisa” e “outra”, localize os dois termos imediatamente anteriores retomados por ela.
  • Em interpretação, confira o efeito da negação no texto antes de concluir o sentido.
  • Não amplie o foco para o tema geral do texto se o comando pede o sentido de um trecho específico.

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Gabarito A

"Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra."

A

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