Li um texto em defesa do uso da palavra “denegrir”, lançando mão de um tratado etimológico quase “iluminista” para
dizer que o termo não tem uma origem racista. Não deixa de me
espantar a quantidade de pessoas brancas que se dizem cansadas
do “politicamente correto”, cansadas de ter de trocar de palavras
e “se censurar”. Li os comentários com profundo espanto. Será
que não entenderam que algumas palavras podem machucar
uma quantidade imensa de pessoas?
Foi na sala de aula de Rita Segato que aprendi que “raça é
signo”. Nessa frase que dá nome a um de seus mais importantes
textos, ela responde a algumas perguntas contrárias às cotas raciais, sendo a primeira: “como é possível falar em cotas raciais se
faz tempo já que a biologia e a antropologia aboliram a raça como
uma categoria válida?”, ao que responde, com perplexidade, que
“somente as representações sociais têm status existencial de realidade num universo plenamente simbólico como é o humano”.
Trocando em miúdos, o fato de sabermos que as raças não
existem biologicamente, que são uma mera questão de melanina
não acaba com o racismo, e não acaba porque somos seres sociais, porque fomos socializados num mundo que escalona as cores
da pele. Mesmo que as ciências tenham avançado e tenhamos
descoberto que não há que se falar biologicamente em raças, a
raça segue existindo. O racismo está no olhar que enquadra e deprecia, está também na insistência de palavras que machucam,
está às vezes em lugares quase invisíveis que sustentam todo um
arcabouço opressivo, assassinando pessoas diuturnamente, física
e simbolicamente.
Mesmo que uma palavra tenha tido uma origem não racista, ou mesmo uma origem racista, eu diria que, independentemente da origem da palavra, é preciso fazer sua leitura hoje,
no contexto atual, no mundo simbólico onde ela transita. Se ela
machuca um grupo de pessoas, não há razão para insistir em
seu uso.
Mas vamos combinar que substituir “denegrir” ou mesmo
“judiar” não são tarefas atlânticas. A coisa boa das palavras é que
há muitas, e sempre surgem novas palavras e modos de dizer. E
não, isso não é um mero “cancelamento” de palavras. Ao contrário, insistir em palavras que agridem é insistir no “cancelamento”
de pessoas. Militar pela abolição de palavras que machucam pessoas e grupos de pessoas é um ativismo importantíssimo e tampouco deve ser confundido com censura. Basta um pouco de
bom senso, razoabilidade e sensibilidade.
Tem gente que ainda usa “o homem” para designar todos
os seres humanos, a humanidade, achando irrelevante o seu caráter excludente para as mulheres, metade da população do país.
Tem gente que insiste em usar a palavra “retardado”, esquecendo de seu poder ofensivo para pessoas com deficiência. Tem
gente à beça que ainda não se deu conta da importância de modificarmos o nosso jeito de falar, de retificarmos nossos textos
para “desgenerificar”, “desracializar”, etc., porque sem modificar
a língua, essa graúda “ferramenta do senhor”, não vamos “derrubar a casa grande”, como diria a poeta Audre Lorde.
A língua está viva. A história e a etimologia nos mostram
também que muitas palavras morreram e outras tantas nasceram, porque a língua é assim, não está morta e cimentada, e
sobretudo, precisa estar aberta para que as palavras possam
representar e traduzir a vida, seus processos, suas lutas e trans
formações sociais. Querendo ou não, a língua é já uma metamorfose ambulante, como a vida. Querer estancá-la e mantê-la
inflexível é destruí-la, não o contrário.
Em pleno século XXI faz sentido insistirmos em vocabulários
e modos linguísticos excludentes, onde nem todes se sentem
representades? E dizer, ainda, que a linguagem neutra é feia?
Tem gente que acha feio porque não se acostumou. Feio é excluir,
feio é insistir em palavras que ferem.
Que a língua, essa metamorfose ambulante, possa, antes
tarde do que mais tarde, abarcar todes que a usam. Encontremos formas de inventar novas palavras e tornar outras mais belas, como disse Drummond. Busquemos a ética na (est)ética de
nossas palavras e textos. Confabulemos com urgência novas
metáforas de claridade e escuridão, porque está tudo tão sufocantemente branco que a brancura queimou nossos neurônios.
É preciso escurecer para perceber. Como disse Manoel de Barros, “às vezes ao poeta faz bem desexplicar – tanto quanto escurecer acende os vagalumes”.
(GONTIJO, Danú. Cancelar palavras para não cancelar pessoas. Jornal Nexo, 2022.
Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2022/Cancelar-palavras
para-n%C3%A3o-cancelar-pessoas. Acesso em: 19/08/2022. Adaptado.)
Das passagens transcritas a seguir, qual a única que apresenta
o conector destacado com valor lógico-semântico adequada
mente indicado?