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Q2002993 Português

Leia a crônica a seguir e responda:


As piscinas


     Passei uma infância cercada de plantas, bichos e amigos. Nada nos faltava. Até mesmo uma pedreira rodeada por eucaliptos fazia parte de minha meninice. Criada no meio de homens, aprendi a andar de carrinho de rolimã, descer de uma roldana presa a uma corda, que ia de uma árvore a outra, pegar sapo no brejo e coisas do tipo. Tudo era perfeito. A única coisa de que eu, meus três irmãos, primos e amigos sentíamos falta era um local para nos refrescar nos dias de calor, e, desde pequenos, ouvíamos a promessa de nosso pai em nos presentear com uma piscina.      A primeira “piscina” que ele nos deu foi um velho tanque de cimento, ex-qualquer coisa, que, além de fundíssimo e perigosíssimo, vivia sujo. Acabou virando horta.      A segunda “piscina” foi um tanque quadrado de mais ou menos 80 cm de profundidade, também de cimento. Tinha até escorregador. Mas, no final, acabou virando a casa da Florípedes, nossa cobra-cipó. Depois, antes de ser destruída, transformou-se no local ideal para minha criação de sapos e rãs.      Nunca fui chegada a cobras, mas a Florípedes era diferente: verde, mansa e sem veneno, andava enrolada no braço de meus irmãos pra cima e pra baixo. Até que um dia apareceu em nossa casa um filhote de cobracoral. Não sei por que cargas d’água, no lugar de darmos um sumiço na bichinha, a colocamos no tanque junto a Florípedes. Tragédia!      Em questão de minutos, Florípedes começou a comer a outra, sob nosso olhar atônito e total impotência. Petrificada, confesso que nenhuma cena me chocou mais do que essa, e nunca mais quis saber de nossa cobracipó.      Nosso sonho só foi se concretizar no final da década de 70, quando finalmente pudemos estrear nossa primeira piscina de verdade, motivo de muitas alegrias, mas também de tristezas, como no dia em que deparamos com nosso pastor-alemão boiando em suas águas.      Certa vez, minha mãe, olhando da varanda, percebeu um estranho movimento no gramado. Intrigada, chamou meu pai, que também nos chamou. Tal foi nosso susto ao ver oito vacas, surgidas Deus sabe de onde, espalhadas no jardim comendo lírios e petúnias, e, como se o insólito da cena não bastasse, outra se “refrescava” dentro da piscina. Tirá-la de lá foi uma luta, sendo necessária a ajuda do Corpo de Bombeiros.      À noite, uma tia nos telefonou querendo saber da vaca: “Mas como você soube disso?”, perguntou minha mãe. E ela: “Pela rádio Itatiaia!”      Gostaria que minhas filhas tivessem tido a oportunidade de viver aquilo que vivi: banhos de lama e mangueira, tanques de cimento, buracos pavimentados, caixas-d’água e outros tantos que chamávamos de piscina. Cada qual com sua história... seu destino... usufruídos até o último momento.      Nadávamos de dia e também à noite, muitas vezes de madrugada, escondidos de nossos pais. Nadávamos na chuva, no frio e no calor, desfrutando cada instante daquele momento de prazer.      Hoje, ao ver os jovens e as crianças pendurados o dia inteiro nos computadores e celulares, me assusto. Para eles, “navegar” na internet tornou-se bem mais atraente que nadar. Enfim, outros tempos, novos desejos.
(MEDIOLI, L. As piscinas. O Tempo, 10 out. 2020. Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/laura-medioli/as-piscinas-1.2397076. Acesso em: 23 out. 2020).
Segundo o texto:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central da questão: Interpretação de texto, com enfoque em mudança semântica (polissemia) e análise crítica do uso de palavras em contextos distintos ao longo do tempo.

Justificativa para a alternativa correta (D):

A alternativa D está correta porque expressa, com precisão, a ideia central do final da crônica. O texto relata como a narradora percebe, com incômodo e surpresa, o novo significado do verbo “navegar” entre os jovens—antes ligado ao ato de nadar, agora restrito à navegação virtual. Essa observação sobre o valor semântico evidencia o fenômeno da polissemia, tema abordado por Evanildo Bechara em sua “Moderna Gramática Portuguesa”: “mudanças de sentido e atualizações vocabulares ocorrem conforme a sociedade evolui”.

No último parágrafo, a narradora destaca: “Para eles, ‘navegar’ na internet tornou-se bem mais atraente que nadar. Enfim, outros tempos, novos desejos.”

Essa frase entrega, sem ambiguidades, que há uma percepção crítica sobre o deslocamento de sentido, trazendo o tom de nostalgia e certa reprovação.


Análise das alternativas incorretas:

A) Incorreta. Não há contradição grave: a narradora claramente explica que não era chegada a cobras, mas gostava de Florípedes por ser especial (“a Florípedes era diferente”), conforme prevê a coerência textual.

B) Errada. O encontro do pastor-alemão boiando na piscina foi motivo de tristeza, não alegria, contrariando a verdade textual (interpretação objetiva de passagens).

C) Imprecisa. A narradora expressa desejo de que as filhas vivessem experiências parecidas às suas, mas não menciona especificamente nadar escondidas como objetivo — isso era apenas uma das várias brincadeiras.


Estratégia de resolução: Fique atento ao sentido original e ao sentido atual das palavras, observando possíveis mudanças semânticas e o tom avaliativo do narrador. Em questões como esta, busque trechos-chave que expressem opinião ou juízo de valor, bem como a relação entre o significado literal e metafórico das palavras.

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