Poucas coisas têm tanto a cara do Brasil quanto uma roda
de choro. Uma das primeiras manifestações instrumentais da
música popular brasileira, o gênero surgiu no final do século 19,
no Rio de Janeiro, como uma expressão urbana, criada a partir
da fusão de elementos e músicas estrangeiras, principalmente
portuguesas e africanas. Ao se popularizar, o choro atravessou
os séculos, multiplicou-se em rodas formadas por todo o país e
segue presente. No último dia 29 de fevereiro, o choro foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do país, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Se, por um lado, é admirável que as tradições do choro
venham sendo transmitidas de geração em geração, há quase 200 anos, por outro, desde meados de 1970, começou-se
a se questionar certos costumes das rodas de choro. Um deles é a prevalência de músicos homens, o que torna esse um
ambiente pouco convidativo para a participação e expressão
de mulheres musicistas. Ainda que esse gênero tenha tido
como uma das principais expoentes a pianista, maestrina e
compositora Chiquinha Gonzaga (1847-1935), as mulheres
tiveram que se esforçar para conquistar respeito e espaço
como instrumentistas e compositoras.
“A roda de choro sempre foi uma espécie de ‘clube do
bolinha’. A presença feminina nesses ambientes chegou a
ser rotulada como ‘auxiliar do marido’, ‘aspirante a cantora’,
‘tocadora de chocalho’ etc.”, relatou Anna Paes, cantora, violonista e pesquisadora.
A própria biografia de Chiquinha Gonzaga retrata a luta
feminina para conseguir reconhecimento na cena da música
popular brasileira. Arrojada, e por isso considerada subversiva, a pianista enfrentou inúmeros desafios ao romper com um
casamento – numa época em que ainda não existia divórcio
–, e, com isso foi afastada de seus filhos e familiares. Chiquinha passou, então, a dar aulas de piano para sobreviver até
se tornar a primeira pianista do choro.
Foi somente na primeira metade do século 20, como relembra Anna Paes, que o crescimento do movimento feminista mundial e a gradual mudança de percepção sobre o
papel da mulher na sociedade permitiram que outras artistas
pudessem projetar seus nomes como profissionais do choro.
Entre elas, destacaram-se Tia Amélia (1897-1983), Lina Pesce (1913-1995) e Carolina Cardoso de Menezes (1913-2000).
(Lígia Scalise. Revista E. Abril de 2024. Adaptado)
No contexto em que foram empregadas, as palavras
“prevalência” (2o
parágrafo) e “subversiva” (4o
parágrafo)
têm como sinônimos, respectivamente,
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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