No fragmento “O que é verdade, o que é imaginação?” (2º§), ...

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Q2088441 Português
Memórias de um aprendiz de escritor

    Escrevo há muito tempo. Costumo dizer que, se ainda não aprendi – e acho que não aprendi, a gente nunca para de aprender – não foi por falta de prática. Porque comecei muito cedo. Na verdade, todas as minhas recordações estão ligadas a isso, a ouvir e contar histórias. Não só as histórias dos personagens que me encantam, o Saci-Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Tom Sawyer, Sacco e Vanzetti. Mas também as minhas próprias histórias, as histórias de meus personagens, estas criaturas reais ou imaginárias com quem convivi desde a infância.

    Na verdade, eu escrevi acima. Verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção. O que é verdade, o que é imaginação? No colégio onde fiz o segundo grau, o Júlio de Castilhos, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso. Fama, não; ele era mentiroso. Todo mundo sabia que ele era mentiroso. Todo mundo, menos ele. 

    Uma vez, o rádio deu uma notícia alarmante: um avião em dificuldade sobrevoava Porto Alegre. Podia cair a qualquer momento. Fomos para o colégio, naquele dia, preocupados; e conversávamos sobre o assunto, quando apareceu ele, o mentiroso. Pálido:

     – Vocês não podem imaginar! 

    Uma pausa dramática, e logo em seguida:

     – Sabem este avião que estava em perigo? Caiu perto da minha casa. Escapamos por pouco. Gente, que coisa horrível! E começou a descrever o avião incendiando, o piloto gritando por socorro... Uma cena impressionante. Aí veio um colega correndo, com a notícia: o avião acabara de aterrizar, são e salvo. Todo mundo começou a rir. Todo mundo, menos o mentiroso:

    – Não pode ser! – Repetia, incrédulo, irritado. – Eu vi o avião cair!

     Agora, quando lembro este fato, concluo que não estava mentindo. Ele vira, realmente, o avião cair. Com os olhos da imaginação, decerto; mas para ele o avião tinha caído, e tinha incendiado, e tudo mais. E ele acreditava no que dizia, porque era um ficcionista. Tudo que precisava, naquele momento, era um lápis e papel. Se tivesse escrito o que dizia, seria um escritor; como não escrevera, tratava-se de um mentiroso. Uma questão de nomes, de palavras.

(SCLIAR, Moacyr. Memórias de um aprendiz de escritor. Editora Ibep Nacional. 2005.)
No fragmento “O que é verdade, o que é imaginação?” (2º§), o autor faz uma pausa no conto para
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central da questão: Interpretação de Texto – compreensão da intenção do autor ao empregar um recurso discursivo (pergunta retórica) e sua função no texto.

Justificativa para a alternativa correta (A):

No fragmento “O que é verdade, o que é imaginação?”, o autor faz uma pausa reflexiva e propõe uma pergunta retórica. Esse recurso não exige resposta literal, servindo para estimular a reflexão do leitor e, mais importante, para aproximar o autor do leitor. Ao questionar junto ao público, ele cria uma atmosfera de diálogo e cumplicidade, estabelecendo intimidade e convidando-o à reflexão. Segundo Koch & Elias (Ler e Compreender), perguntas retóricas são estratégias eficazes para envolver o interlocutor e criar proximidade. Assim, a resposta certa é:

A) Estabelecer uma intimidade com o leitor.

Por que as alternativas estão incorretas?

B) O texto menciona um “mentiroso”, mas o trecho analisado não tem por objetivo emitir opinião sobre mentirosos; apenas faz um questionamento amplo sobre verdade/imaginação.
C) Embora a frase reflita sobre ficção, a finalidade central ali é convidar o leitor para junto da dúvida, e não uma mera “indagação técnica” sobre veracidade.
D) O questionamento não se limita às histórias dos personagens citados. Refere-se genericamente à tênue linha entre o real e o imaginário.

Dica de interpretação: Perguntas retóricas costumam ser marcadores de empatia e, em geral, seu propósito é provocar aproximação, não simplesmente questionar fatos.

Regra-chave: Segundo Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), compreender a função do enunciado e sua intenção comunicativa é essencial para uma interpretação textual segura em concursos.

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Comentários

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Logo em seguida ao trecho que a questão traz o autor fala: "No colégio onde fiz o segundo grau". Ao contar um fato pessoal/íntimo de sua vida o autor estabelece uma relação de intimidade com o leitor.

Perguntei ao ChatGPT sobre qual seria a correta e ele respondeu

"A alternativa correta é a C) Realizar uma indagação sobre ficção – a veracidade dos fatos narrados. O autor está refletindo sobre a relação entre verdade e imaginação na criação ficcional, questionando como podemos distinguir o que é verdadeiro do que é imaginado em uma história. Ele usa o exemplo do rapaz mentiroso para ilustrar como a percepção da realidade pode ser subjetiva e como ficção pode ser confundida com mentira se não for claramente identificada como tal."

Nada a ver isso ai. Em momento algum teve interação com o leitor. Gabarito deveria ser C

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