De acordo com a conjuntura textual, é correto afirmar que:

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Q2088438 Português
Memórias de um aprendiz de escritor

    Escrevo há muito tempo. Costumo dizer que, se ainda não aprendi – e acho que não aprendi, a gente nunca para de aprender – não foi por falta de prática. Porque comecei muito cedo. Na verdade, todas as minhas recordações estão ligadas a isso, a ouvir e contar histórias. Não só as histórias dos personagens que me encantam, o Saci-Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Tom Sawyer, Sacco e Vanzetti. Mas também as minhas próprias histórias, as histórias de meus personagens, estas criaturas reais ou imaginárias com quem convivi desde a infância.

    Na verdade, eu escrevi acima. Verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção. O que é verdade, o que é imaginação? No colégio onde fiz o segundo grau, o Júlio de Castilhos, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso. Fama, não; ele era mentiroso. Todo mundo sabia que ele era mentiroso. Todo mundo, menos ele. 

    Uma vez, o rádio deu uma notícia alarmante: um avião em dificuldade sobrevoava Porto Alegre. Podia cair a qualquer momento. Fomos para o colégio, naquele dia, preocupados; e conversávamos sobre o assunto, quando apareceu ele, o mentiroso. Pálido:

     – Vocês não podem imaginar! 

    Uma pausa dramática, e logo em seguida:

     – Sabem este avião que estava em perigo? Caiu perto da minha casa. Escapamos por pouco. Gente, que coisa horrível! E começou a descrever o avião incendiando, o piloto gritando por socorro... Uma cena impressionante. Aí veio um colega correndo, com a notícia: o avião acabara de aterrizar, são e salvo. Todo mundo começou a rir. Todo mundo, menos o mentiroso:

    – Não pode ser! – Repetia, incrédulo, irritado. – Eu vi o avião cair!

     Agora, quando lembro este fato, concluo que não estava mentindo. Ele vira, realmente, o avião cair. Com os olhos da imaginação, decerto; mas para ele o avião tinha caído, e tinha incendiado, e tudo mais. E ele acreditava no que dizia, porque era um ficcionista. Tudo que precisava, naquele momento, era um lápis e papel. Se tivesse escrito o que dizia, seria um escritor; como não escrevera, tratava-se de um mentiroso. Uma questão de nomes, de palavras.

(SCLIAR, Moacyr. Memórias de um aprendiz de escritor. Editora Ibep Nacional. 2005.)
De acordo com a conjuntura textual, é correto afirmar que:
Alternativas

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Tema central: Interpretação de texto — compreensão das ideias implícitas e explícitas, com foco em semântica e relativismo da verdade.

Justificativa da alternativa correta (A):
A opção A) "A concepção de verdade não é absoluta" está correta porque, ao longo do texto, o autor afirma de modo explícito a relatividade do conceito de verdade no universo da ficção. Observe que ele diz: "Verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção. O que é verdade, o que é imaginação?" Essa declaração mostra que, para o escritor, a linha entre o verdadeiro e o imaginário é subjetiva e depende do ponto de vista de quem conta a história.
Estratégia de prova: Sempre que o texto questiona ou relativiza conceitos (“verdade”, “mentira”, “realidade”), a banca busca avaliar sua capacidade de interpretação crítica, como ensina Evanildo Bechara em sua Moderna Gramática Portuguesa — não tome termos literalmente, e sim observe como o autor os discute no contexto.

Análise das alternativas incorretas:

B) "Um ficcionista comumente escreve o que diz."
Errada, pois o texto mostra que o ficcionista poderia escrever o que diz (isso tornaria suas histórias literatura, e não mentira), mas não que ele costuma fazer isso. Generalizações não baseadas no texto são comuns em pegadinhas.

C) "Quem é mentiroso não poderá se tornar escritor."
Incorreta. O texto propõe justamente o oposto ao afirmar que, se o tal "mentiroso" escrevesse suas histórias, seria escritor. Portanto, a opção generaliza e contraria a lógica textual. Evite absolutismos em interpretação.

D) "O escritor vê com os olhos da imaginação; acredita no que diz."
Parcialmente baseada no texto, porém equivocada: o texto até descreve o uso da imaginação, mas não confirma que o escritor necessariamente acredita em tudo que escreve. Pegadinhas desse tipo usam aproximações do texto, mas alteram o sentido.

Dica para futuras provas: Atenção às palavras-chave que indicam relativização (como "relativo", "depende", "do ponto de vista") — elas costumam sinalizar que o autor está problematizando conceitos, não afirmando verdades absolutas.

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Comentários

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Segundo parágrafo

“verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção.”

"Verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção."

Questão mal feita ou mal interpretada pelo próprio examinador. A verdade só e´ relativa para o escritor, como na frase acima que copiei do texto, e a letra A afirma "A concepção de verdade não é absoluta." como se o fosse para todos (generalizou). Eu entraria com recurso, pois a menos errada seria a letra D.

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