No trecho “Tudo isso resultou em inesperada economia e criou...
Leia o texto a seguir para responder à questão.
Vício secreto
Depois de vários assaltos, ela decidiu que estava na hora de mudar de vida. De nada adianta, dizia, andar de carro de luxo e morar em palacete se isso serve apenas para atrair assaltantes. De modo que comprou um automóvel usado, mudou-se para um apartamento menor e até começou a evitar os restaurantes da moda.
Tudo isso resultou em inesperada economia e criou um problema: o que fazer com o dinheiro que ela já não gastava? Aplicar na Bolsa de Valores parecia-lhe uma solução temerária; não poucos tinham perdido muito dinheiro de uma hora para outra – quase como se fosse um assalto. Outras aplicações também não a atraíam. De modo que passou a comprar aquilo de que mais gostava: joias. Sobretudo relógios caros. Multiplicavam-se os Bulgan, os Breitling, os Rolex. Já que o tempo tem de passar, dizia, quero vê-lo passar num relógio de luxo.
E aí veio a questão; onde usar todas essas joias? Na rua, nem pensar. Em festas? Tanta gente desconhecida vai a festas, não seria impossível que ali também houvesse um assaltante, ou pelo menos alguém capaz de ser tentado a um roubo ao ter a visão de um Breitling. Sua paranoia cresceu, e lá pelas tantas desconfiava até de seus familiares. De modo que decidiu: só usa as joias quando está absolutamente só.
Uma vez por semana tranca-se no quarto, abre o cofre, tira as joias e as vai colocando: os colares, os anéis, os braceletes – os relógios, claro, os relógios. E admira-se longamente no espelho, murmurando: que tesouros eu tenho, que tesouros.
O que lhe dá muito prazer. Melhor: lhe dava muito prazer. Porque ultimamente há algo que a incomoda. É o olhar no rosto que vê no espelho. Há uma expressão naquele olhar, uma expressão de sinistra cobiça que não lhe agrada nada, nada.
(SCLIAR, Moacyr. Texto adaptado. Original disponível em: www.folha.uol.com.br. Acesso em: julho de 2024.)
Gabarito comentado
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Tema central da questão: Interpretação de texto, com foco em pergunta retórica e sua função dentro do enredo.
No trecho destacado (“o que fazer com o dinheiro que ela já não gastava?”), temos uma interrogativa indireta usada como pergunta retórica. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), esse recurso expressa questionamento, reflexão ou incerteza, sem expectativa de resposta literal: revela um conflito interno ou dúvida da personagem.
Por que a alternativa B (“Dúvida”) é correta?
Ao mudar seus hábitos, a personagem acumula uma economia inesperada; a pergunta feita não busca resposta do leitor, mas explicita insegurança e vacilo sobre como lidar com o dinheiro poupado. A estratégia de leitura passa por reconhecer marcas linguísticas que constroem esse estado de dúvida — como o verbo “fazer” no infinitivo e a própria estrutura interrogativa — confirmando que se trata de uma indagação interna.
Comentário sobre as alternativas incorretas:
A) Crítica: Não há reprovação nem juízo de valor; o tom é de reflexão.
C) Definição: Não há caracterização ou delimitação de conceito, mas questionamento.
D) Comparação: Não há equiparação entre elementos; apenas incerteza sobre o destino do dinheiro.
Estratégia valiosa para concursos:
Ao se deparar com interrogativas em textos narrativos ou reflexivos, observe se há expectativa de resposta ou se a pergunta reforça um sentimento (dúvida, reflexão, crítica). Para autores como Cunha & Cintra, a pergunta retórica frequentemente introduz hesitação ou perplexidade, e não exige resposta direta.
Resumo: A alternativa B) Dúvida é a correta porque a personagem, diante da economia imprevista, demonstra incerteza sobre como proceder, evidenciada por meio da pergunta retórica.
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