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Q819411 Português

Leia o texto abaixo e responda à questão proposta.

   Ecosofia é um curioso neologismo que ganha vida a partir do fim da década de 60 do século XX. Ainda que não seja possível identificar com certeza o inventor do termo, investigações em livros e artigos dão algumas pistas sobre o contexto de seu surgimento. O uso da palavra ecosofia era amplo entre ativistas da questão ecológica, mesmo em uma época na qual temas ambientais ainda não haviam se convertido em prioridade. Por se tratar de um termo recente, não há um claro consenso de seu significado, sendo possível encontrar as mais diferentes definições. Mas, ao menos em um ponto, a maioria dos autores parece concordar: Ecosofia não é apenas uma “filosofia da ecologia”, e sim uma postura ativista e política que objetiva agir no mundo, mais do que simplesmente pensá-lo.

      "A Filosofia sempre chega tarde demais”, disse certa vez o filósofo alemão Georg Friedrich Hegel (1770-1831), usando a coruja e seu voo crepuscular como alegoria. Mas não interessa aos ecosofistas a imagem da coruja de Atenas, a alçar voo apenas quando o dia se findou. Há no mínimo duas maneiras de encarar essa associação: na melhor das hipóteses, a Filosofia teria – assim como a coruja – a capacidade de enxergar na escuridão, de ver o que ninguém mais vê e ouvir o que ninguém mais ouve. Mas há o aspecto triste de tudo isso: haveria pouco, muito pouco que a Filosofia poderia fazer pelo mundo, com sua compreensão tardia, com seu voo que ocorre somente quando o dia já morreu. Limitar-se a explicar o que se passou, decolando apenas no ocaso da vida, não é algo que atraia os ecosofistas. Nesse sentido, eles parecem se aproximar mais da perspectiva marxista da Filosofia. Para Karl Marx (1818-1883), os filósofos não deveriam mais se contentar em interpretar o mundo, mas teriam a obrigação ética de agir sobre ele.

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Na Ecosofia, não somos “amigos da sabedoria do ambiente”. A exemplo dos antigos gimnosofistas hindus, a sabedoria é buscada no corpo, nos sentidos, em uma relação fisiológica com a natureza, não exigindo, portanto, grande erudição, mas sim atenção ao ambiente. E prioriza, sobretudo, uma existência focalizada no necessário, combatendo os supérfluos. Quando um índio, por exemplo, extrai do amapazeiro o leite suficiente para a nutrição de sua família, não se preocupando em retirá-lo para vendê-lo e acumular lucro, está assumindo uma postura ecosofista, mesmo que seja de modo involuntário, pois compreende a importância de retirar apenas o necessário à sua sobrevivência. Uma das bases fundamentais da Ecosofia, de acordo com diferentes autores, é a rejeição a tudo o que é excedente. “Sabedoria do ambiente” seria mais do que ecofilosofia, pois envolve uma abordagem bem mais orgânica e ativista do que mental.

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      Um dos primeiros textos a utilizar o termo Ecosofia mais amplamente é de 1971 e critica duramente a militância ambiental. Trata-se do livro In Defense of People: Ecology and Seduction of Radicalism , escrito pelo religioso Richard Neuhaus (1936-2009). Neuhaus, ministro luterano depois convertido ao catolicismo e tornado padre, foi conselheiro do presidente Georg Bush em questões ambientais. Alinhado com o paradigma antropocêntrico religioso, que dispõe o homem como centro do mundo e a natureza como sua serva, Neuhaus criticava o que chamava de “catastrofismo” das militâncias ecológicas e acusava os militantes de tentarem impedir o caminho do progresso. Vale lembrar que a própria Bíblia – livro fundamental para compreendermos o pensamento de Neuhaus – explicita a soberania do homem sobre a natureza em Genesis: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança: domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra. Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. 

      DODSWORTH-MAGNAVITA, Alexey. Rev. Filosofia: julho de 2012, p. 1 

No texto, os componentes de todos os pares que se seguem opõem-se ideologicamente entre si, EXCETO:
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: identificar se o par é de oposição ideológica ou de aproximação. No trecho “Na Ecosofia, não somos “amigos da sabedoria do ambiente”. A exemplo dos antigos gimnosofistas hindus, a sabedoria é buscada no corpo, nos sentidos, em uma relação fisiológica com a natureza [...]”, a referência aos gimnosofistas funciona como analogia e afinidade com a Ecosofia, não como contraposição. Assim, D é a única alternativa que não apresenta oposição ideológica.

Tema central: oposição ideológica e aproximação textual
Análise das alternativas
A
Errada
Não é a exceção. O texto aproxima os ecosofistas da perspectiva marxista da Filosofia, pois ambos valorizam a ação sobre o mundo, em contraste com a mera interpretação. A oposição relevante é entre essa postura ativa e a ideia de limitar-se a pensar ou explicar, não uma afinidade entre os termos da alternativa.
B
Errada
Não é a exceção. O texto explicita a oposição entre o paradigma antropocêntrico religioso, que coloca o homem como centro e a natureza como serva, e a Ecosofia, que propõe relação orgânica e não predatória com o ambiente.
C
Errada
Não é a exceção. O texto distingue “sabedoria do ambiente” de ecofilosofia ao afirmar que aquela “seria mais do que ecofilosofia”, por envolver uma abordagem “bem mais orgânica e ativista do que mental”. Há, portanto, contraste conceitual.
D
Certa
A alternativa D é a exceção porque o texto aproxima a Ecosofia da sabedoria dos antigos gimnosofistas hindus. O marcador “A exemplo dos antigos gimnosofistas hindus” introduz um modelo afim à definição de Ecosofia, ligada ao corpo, aos sentidos e à relação fisiológica com a natureza. Portanto, não há oposição ideológica entre esses termos.
Pegadinha da questão
A banca explora a diferença entre oposição e aproximação. Como a Ecosofia aparece associada a termos próximos no texto, o candidato pode supor uma oposição onde o autor, na verdade, estabelece analogia. O sinal decisivo é “A exemplo de”.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões com “EXCETO”, procure o par que o texto relaciona por analogia ou exemplo, e não por confronto.
  • Observe marcadores como “A exemplo de”, que indicam aproximação; já expressões como “mais do que” e “não é apenas” costumam marcar distinção.
  • Não conclua pela semelhança vocabular: verifique se o texto contrapõe, hierarquiza ou apenas aproxima os conceitos.
  • Quando a oposição não for literal, reconstrua a rede textual para ver quais ideias se alinham à ação e quais ficam restritas à interpretação.

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Comentários

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Na Ecosofia, não somos “amigos da sabedoria do ambiente”. A exemplo dos antigos gimnosofistas hindus, a sabedoria é buscada no corpo, nos sentidos, em uma relação fisiológica com a natureza, não exigindo, portanto, grande erudição, mas sim atenção ao ambiente.

NÃO SE OPÕEM IDEOLOGICAMENTE!

Gabarito Letra D!

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