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Ser Acessível: entenda como atitudes comuns no dia a dia são capacitistas e impedem a inclusão (Parte I)

Especialistas destacam que preconceito pode ser invisível, quando a pessoa- com deficiência é excluída, e como isso atrapalha a inclusão na educação. 'Problema não é errar, é não se abrir para aprender', diz Guilherme Bara.

Pode ser que você nem tenha percebido, mas é bem provável que, em algum momento da vida, seja na escola, trabalho ou na rua, mesmo sem intenção, tenha tomado alguma atitude capacitista. Mas para entender o porquê e como isso ocorre, é preciso responder a primeira pergunta: o que é capacitismo?

Capacitismo é a palavra usada para definir discriminação e preconceito contra pessoas com deficiência, associando-as a seres humanos inferiores ou menos capazes.

E de onde vem esse preconceito? O professor Régis Henrique dos Reis Silva, da Faculdade de Educação da Unicamp, explica que o conceito ganhou força na sociedade moderna.

“Você passa a ter na modernidade um ideário que, de certa forma, há aqueles que vão ser considerados mais produtivos, portanto, mais capazes, e aqueles que vão ser considerados improdutivos, no caso, os incapazes. E aí dentro desse grupo dos considerados incapazes é onde boa parte das pessoas com deficiência foram classificadas. O capacitismo está muito relacionado a isso.”

E o medo de errar é um problema? Esse comportamento de entender que uns são menos capazes que outros, reproduzido por anos, cria barreiras até mesmo "invisíveis" no caminho da inclusão. Entre elas, o medo de errar com pessoas com deficiência, o que faz com que elas sejam ignoradas no dia a dia.

Uma ideia que precisa ser eliminada, explica Guilherme Bara, que ficou cego na adolescência e que atua como palestrante e consultor nas áreas de diversidade e compliance.

Especialistas ouvidos para a série "Ser Acessível", coprodução do g1 e EPTV que aborda a inclusão e acessibilidade na educação básica, foram unânimes em classificar o capacitismo, uma barreira atitudinal, como a mais difícil de eliminar.

Para além de rampas, pisos táteis, materiais adaptados e outros recursos de acessibilidade, incluir depende de uma mudança de comportamento, conhecimento, vontade e empatia.


O primeiro passo 

Um passo fundamental na busca pela erradicação do capacitismo passa pela necessidade de reconhecimento que ele existe. “O primeiro movimento é esse de tomada de consciência”, defende Régis Silva.

Na avaliação de Andreia dos Santos de Jesus, palestrante sobre acessibilidade no 4ª Fórum Diálogos da Educação, a construção de uma sociedade mais humana passa pela necessidade de eliminar o capacistismo, e ela vê a escola pública como porta de entrada para essa mudança de comportamento.

“É quase um pacto com a humanidade. A gente quer a humanidade mesmo, ou quer alguns da humanidade? E acho que a escola pública é onde a gente refaz esse compromisso. Há um caminho longo a ser percorrido, concordo. Muita a coisa a ser feita. Viver nessa diversidade dá muito mais trabalho. Mas o resultado disso pode ser um mundo melhor? Não tenho a menor dúvida disso”, diz Andreia.

E o medo do erro? 

Guilherme Bara avalia que parte do distanciamento da sociedade no relacionamento com pessoas com deficiência passa por esse medo de errar e os julgamentos que são feitos a partir desse erro.

“Lidar com erro é fundamental. Às vezes as pessoas excluem pessoas com deficiência não é porque elas são malvadas, é porque elas morrem de medo de errar”, explica.

Mas para aprender e ser anticapacistista é necessário reconhecer que não se sabe ou conhece pouco sobre o tema, que é vulnerável. E o consultor orienta que a melhor de maneira para aprender com base na realidade de outra pessoa “é perguntar mais e deduzir menos”.

“Quando você deduz algo, às vezes, na boa intenção, sua fantasia em relação àquele tema vem à tona, que relaciona a deficiência com incapacidade, com coitadinho, com super-herói”.

Excluir é mais fácil

Segundo Bara, a pessoa com deficiência é, no inconsciente da sociedade, uma pessoa que tem uma vida muito difícil, e em vez de aprender a lidar, ela opta por excluir.

“As pessoas pensam: ‘Imagina que tristeza ter dificuldade para enxergar ou não enxergar nada, dificuldade para ouvir, andar’. E na hora que vou interagir com ela eu ainda vou lá e erro? Meu Deus, aí que vou para o inferno direto. Então o que elas fazem? Buscam aprender? Não, elas vão para o caminho mais fácil, evitam o convívio. E quando falo pessoas, as instituições fazem isso, as escolas fazem isso”, pontua.

Como ele ficou cego? O consultor de 47 anos conta que perdeu a visão por conta de uma retinose pigmentar, e o processo ocorreu durante infância e adolescência, período em que estudava em uma escola regular, e quando o assunto acessibilidade não era discutido.

"Quando eu terminei a escola eu estava cego, mas foi um processo interessante, porque estudei numa escola regular, então eu era a única criança que tinha deficiência visual ali. E 35, 40 anos atrás, tudo era meio novidade, era na raça. Se tinha algum desafio que a escola não resolvia, tinha que ir na delegacia de ensino para não ser excluído das aulas. Minha mãe participou de todo esse desafio", lembra.

A experiência pessoal serve como referência de que incluir é possível, mesmo com percalços. Numa época desafiadora, sem tantas ferramentas e conhecimento sobre o tema, ele avalia como positivo o processo enfrentado, que solidificou relações de amizades que duram até hoje.

"Embora ninguém já tivesse feito curso de como incluir um aluno com deficiência visual, as pessoas estavam muito abertas a aprender. Foi bom para mim e muito bom para meus amigos poderem, no ambiente escolar, ter contato com alguém com essa característica. Isso fez certamente com que o que olhar deles fosse muito mais natural ao tema da pessoa com deficiência", diz.

Disponível em: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/ser-acessivel/noticia/2025/05/19/ser-acessivel-entenda-comoatitudes-comuns-no-dia-a-dia-sao-capacitistas-e-impedem-a-inclusao.ghtml Acesso em 26/04/2026 
Leia o trecho abaixo:
“Um passo fundamental na busca pela erradicação do capacitismo passa pela necessidade de reconhecimento que ele existe.”
Assinale a alternativa que apresenta o significado correto da palavra “erradicação” no contexto:
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