JOSÉ PAULO PAES – “Declaração de Bens” meu deus minha pátr...
JOSÉ PAULO PAES – “Declaração de Bens”
meu deus
minha pátria
minha família
minha casa
meu clube
meu carro
minha mulher
minha escova de dentes
meu calo
minha vida
meu câncer
meus vermes
(José Paulo Paes. Um por todos: poesia reunida. São Paulo: Brasiliense, 1986, pág. 82.)
Leia as afirmações sobre o poema de José Paulo Paes:
I. Através do recurso estilístico da enumeração o poeta quer, como o título sugere, destacar os bens a qual é possuidor, dando ênfase a sua grandeza.
II. Os pronomes possessivos reiterados em todos os versos do poema indicam na verdade que o poeta (e o ser humano) é um despossuído, condenado a morte. Assim, o título é irônico, pois nada possuímos.
III. O poema tem forte apelo existencial, representando o nonsense, a falta de perspectivas que a vida humana possui.
IV. O poema está estruturado dentro de uma perspectiva minimalista, ou seja, com uma economia de meios no plano formal.
Assinale a alternativa em que todas as afirmações estejam
corretas na integralidade de seu enunciado:
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Gabarito: C) II, III, IV.
Tema central: Esta questão explora interpretação de texto poético, focando em recursos estilísticos como enumeração, uso de pronomes possessivos, ironia e o conceito de minimalismo. É um exercício de análise literária e semântica, conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa.
Análise da alternativa correta (C):
II – Correta. O uso reiterado de pronomes possessivos (“meu”, “minha”, “meus”) sugere, mais do que posse, a ironia sobre o que é, de fato, “possuído”: elementos materiais e existenciais, positivos e negativos – como “meu câncer”, “meus vermes”. Conforme a gramática normativa (Bechara), a ironia é um recurso para inverter ou questionar sentidos. Aqui, o título é irônico, pois destaca a ilusão de posse na vida humana.
III – Correta. O poema reflete um apelo existencial ao incluir bens banais e trágicos num mesmo rol, gerando sensação de nonsense (ausência de sentido claro). Isso mostra a fragilidade existencial do ser humano, tema próximo ao existencialismo (Cunha & Cintra: análise de sentidos literários).
IV – Correta. O texto utiliza o minimalismo: versos curtos, estrutura simples, economia de palavras e forte sugestividade, em linha com o conceito de economia formal (Manual de Redação da Presidência da República: clareza e concisão textual são valorizadas na construção de sentido).
Análise das alternativas incorretas:
I – Incorreta. Embora o poema utilize enumeração, a intenção NÃO é dar ênfase à “grandeza” dos bens, mas sim revelar seu verdadeiro caráter efêmero e contraditório. “Meu câncer” e “meus vermes” ilustram a ironia da posse e a limitação humana, portanto, a ênfase não recai sobre grandeza, mas sobre a precariedade.
Pegadinhas: Atenção à palavra “grandeza” (afirmação I), pois sugere um elogio, enquanto o poema é crítico e irônico. Outra sutileza comum em concursos é considerar apenas a presença da figura de linguagem (enumeração), sem analisar o seu efeito.
Entendendo a chave da questão: Releia os termos irônicos do poema e observe a ordem dos itens enumerados – do sagrado e cotidiano ao trágico e visceral. Isso revela que o texto faz pouco caso da ideia tradicional de posse, alinhando-se à perspectiva existencial e minimalista.
Referências para estudo: Evanildo Bechara (figuras de linguagem); Cunha & Cintra (semântica e análise de texto); Manual de Redação da PR (clareza e concisão).
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