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TEXTO 2: A LITERATURA E A SOCIEDADE EXCITADA


      O livro de Christoph Türcke intitulado Sociedade excitada (2010 [2002]), mesmo sem se referir diretamente ao que se passa hoje nas escolas, realiza uma leitura do paradigma da sensação que controla nossas sensibilidades e aquelas do mercado. Atualmente tem vida assegurada somente aquilo que excita a percepção continuamente; deixar de excitar a percepção significa, nesse esquema, perder pontos na bolsa de valores dos olhares apenas parcialmente atentos, e é por isso que só o espetacular pode sobreviver.

      Não por acaso – e não há contradição alguma nisso –, a sociedade excitada é, ao mesmo tempo, a sociedade do cansaço, conforme Byung Chul Han observa em seu livro nomeado justamente Sociedade do cansaço (2015). Logicamente, o excesso de estímulos nos deixa cansados e à beira do tédio; diminuir a frequência de estímulos, contudo, corresponde a correr o risco de sair de cena. Frente a um mundo espetacularizado e que não cessa de estimular a percepção – “ser é ser visto” –, a escola só pode sobreviver pela via da espetacularização de si. Celulares, tablets, data shows e outros recursos imagéticos preenchem os espaços vazios da sala de aula, a fim de que a vida escolar entre as quatro paredes se torne suportável ou pelo menos parecida com o que se passa fora delas. Em vez de tensionar ou interromper momentaneamente o fluxo de estímulos e imagens, a escola se entrega a ele numa tentativa última de ganhar tempo de sobrevida.

       A literatura, entretanto, não emite, não conecta, não irradia, não estimula e não excita, pelos menos não nos termos aqui em pauta. A literatura é uma atividade negativa, que demanda um tempo incompatível com aquele da sociedade excitada, da sociedade do cansaço. Para que a literatura possa de fato existir em sua singularidade, e não como simulacro, faz-se necessário aquilo que Fabio Durão (2011) chama de “estratégia de desaceleração” dos objetos: “Tornar o pensamento e a interpretação mais lentos é precondição para que os objetos possam surgir como eles mesmos...”.

      Corretas ou não, essas falas expressam uma convicção profunda acerca do fato, aparentemente óbvio, mas hoje sob suspeita, de que a experiência literária jamais prescinde do contato direto com as obras literárias, lidas em sua singularidade. Restituir esse princípio mínimo ao centro dos debates sobre o lugar do literário nas instituições de ensino constitui o primeiro passo para a reavaliação geral da relação entre literatura e educação.

      Efetivar a presença da literatura na escola significa, então, antes de qualquer outra coisa, empreender uma violência contra o fluxo contínuo das coisas, ou melhor, mudar a nossa relação com o tempo, estabelecer uma atenção aos objetos, capaz de desacelerar a passagem homogeneizante de conteúdos e imagens. O tempo que a leitura literária demanda abriga, simultaneamente, sua verdadeira potência, mas também sua fragilidade maior: inserida em uma instituição supostamente em crise graças ao mundo espetacularizado que adentrou as suas portas, a literatura, por um lado, pode fundar uma temporalidade crítica para esse mundo, permitindo uma outra forma de relação com os objetos; por outro lado, se desfaz de imediato, destituída da lentidão que lhe é particular, cedendo espaço aos dispositivos que convertem todas as coisas em mercadoria.

ANDRÉ CECHINEL
Adaptado de Revista Pro-Posições, Campinas, v. 29, nº
2, 2018. 
Ao dizer que “a experiência literária jamais prescinde do contato direto com as obras literárias” (4º parágrafo), o autor se opõe a práticas pedagógicas como as centradas em:  
Alternativas

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a oposição entre leitura direta da obra e mediações que a substituem. Quando o texto afirma, no 4º parágrafo, que “a experiência literária jamais prescinde do contato direto com as obras literárias, lidas em sua singularidade.”, estabelece que a experiência literária depende da leitura efetiva da obra; por isso, a alternativa correta é a que descreve práticas centradas em informações periféricas sobre autor e estilo.

Tema central: leitura direta da obra
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque elaboração de resenhas e montagem teatral podem decorrer da leitura da obra e, por si sós, não a substituem. O texto não condena toda atividade posterior ou complementar; ele se opõe ao que afasta o aluno da leitura efetiva da obra.
B
Errada
Está errada porque leitura de autores canônicos e de bestsellers continua sendo leitura de obras. O critério do texto não é a oposição entre tipos de autores ou valor estético, mas entre contato direto com a obra e práticas que a substituem por informações sobre ela.
C
Errada
Está errada porque empréstimos de livros favorecem o acesso à obra, e organização de debates pode partir da leitura dela. Essas práticas são compatíveis com a defesa do contato direto com as obras literárias e não configuram, em si, sua substituição.
D
Certa
A alternativa D está correta porque “resumos de biografias e de características de estilo” deslocam o foco da obra literária para conteúdos externos ou esquemáticos sobre ela. Isso contraria diretamente a ideia de que a experiência literária exige “contato direto com as obras literárias, lidas em sua singularidade”.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre atividade pedagógica complementar e prática que substitui a obra. O texto não rejeita mediações em geral; rejeita quando o centro deixa de ser a leitura da obra em sua singularidade.
Dica para questões semelhantes
  • Localize a oposição central do texto: aqui, não é entre autores melhores ou piores, mas entre ler a obra e falar sobre ela sem lê-la.
  • Dê peso máximo a expressões de indispensabilidade, como “jamais prescinde”, porque elas definem o critério de exclusão das alternativas.
  • Desconfie de opções baseadas em conteúdos acessórios, como biografia, estilo resumido ou esquemas gerais, quando o texto exigir contato direto com o objeto literário.

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