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Leia o fragmento abaixo.“Certas conjunções coordenativas pod...

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Q4155993 Português

Leia o texto e responda à questão.

Texto I

'Quer adressar?', me perguntou a moça

Dicas para acessar o português moderno e não dar a resposta errada a uma boa proposta

De início, não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o envelhecer a meu favor, fingindo perda de audição pela idade avançada, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

O cenário era a loja chique de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que - como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui - a ficha caiu:

“Eu posso adressar o produto amanhã cedo para a sua casa?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender.

Os neologismos participam da língua, inputam em alguns casos a solução onde antes havia um gap de comunicação. “Adressar’, metabolizado do inglês to address, era endereçar a paciência para um lugar muito distante de qualquer necessidade, mas entendi o approach. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping. Bastava me remeter (se quisesse falar um português bonito), me despachar (se gostasse de mostrar a chiadeira do sotaque carioca) ou simplesmente me entregar a compra - verbos que seriam imediatamente compreensíveis por qualquer idoso - amanhã cedo. Ri por dentro.

A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, rogar na de Luís de Camões, na de Ana Martins Marques, e - como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas - tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação - exibindo às vezes uma mesóclise de polainas - e já no parágrafo seguinte caio de boca - com o piercing no lábio inferior - no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

Ela adora uma novidade, mas não é boba. Já enfrentou o gerundismo, o “a nível de”, o prefeito que proibiu usar “sale” nas vitrines, o “atravessamento”, o ministro que traduzia para o tupi-guarani as expressões que chegavam ao gabinete em inglês. Na onda do mundo digital, é natural reciclar palavras que acessem, que resetem, que escaneiem ou zapeiem o novo cotidiano agora online. Algumas logo desaparecem debaixo da risada geral (estartar, por exemplo), outras seguirão, numa nice, para os jobs do dia a dia.

Eu printo, tu printas, quem nunca? Na semana passada, uma amiga me telefonou para contar a última do vocabulário em seu escritório. Na reunião da manhã, o diretor executivo exultava de felicidade, e fez um speech dizendo que “o resultado do benchmark draivou a melhoria do processo” - isso mesmo, no sentido de “to drive” do inglês, o benchmark guiou, dirigiu com sucesso os negócios do escritório. O resto foi o de sempre, e tome deadline, upscaling, asap, trade marketing e foco no cliente.

A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial - e me fiz up to date:

“Sim, por favor, adressa, sim”.

(SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/joaquim-ferreira-dos-santos/coluna/2025/10/quer-adressar-me-perguntou-a-moca.ghtml>.

Leia o fragmento abaixo.
“Certas conjunções coordenativas podem, no discurso, assumir variados matizes significativos de acordo com a relação que estabelecem entre os membros (palavras e orações) coordenados.” (CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 7. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2017. p. 596)
Considerando o que afirmam Cunha e Cintra, assinale a opção em que a conjunção “e”, normalmente aditiva, estabelece outro matiz significativo, semelhante àquele expresso em “De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e [...] pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.” (§1°).  
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo é que, no trecho-base, a conjunção “e” não vale apenas como adição: ela liga duas ações em que a segunda resulta da primeira. Assim, o enunciado pede a alternativa em que o mesmo “e” introduz uma relação semanticamente motivada entre as orações, e isso ocorre em D.

Tema central: valor semântico do e
Análise das alternativas
A
Errada
Em “Viajei buscando aprender sobre diferentes culturas e não assimilei nada”, a segunda oração produz efeito de frustração da expectativa criada pela primeira. O núcleo semântico é de contraste com o objetivo da viagem, não de consequência motivada como no trecho-base.
B
Errada
Em “Decidiu trabalhar arduamente e dar uma vida mais confortável aos pais”, a segunda oração expressa finalidade do trabalho e da decisão. Não há o mesmo valor de decorrência causal entre as orações; o sentido predominante é finalístico.
C
Errada
Em “todos os meus filhos são confiáveis e leais”, o “e” apenas soma dois predicativos do mesmo termo. Trata-se de adição de características, sem matiz de consequência, explicação ou decorrência.
D
Certa
Em “A madrasta era gananciosa e não queria gastar dinheiro com os filhos do marido”, a segunda oração não apenas se soma à primeira. O sentido é de motivação causal e decorrência: o fato de ser gananciosa explica o comportamento de não querer gastar dinheiro. Esse encadeamento é o mesmo padrão semântico do trecho-base.
E
Errada
Em “sou eu, e muito eu”, o “e” introduz reforço enfático/intensificação em construção expressiva e elíptica. Não há relação entre duas orações com o valor lógico-semântico presente no trecho-base.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre coordenação sintática e valor semântico. O erro mais provável é tratar todo “e” como simples adição ou escolher uma alternativa em que haja apenas relação entre ideias, sem verificar se essa relação é especificamente de consequência/explicação contextual.
Dica para questões semelhantes
  • Não decida pela classe da conjunção isoladamente; verifique a relação de sentido que ela produz no contexto.
  • Compare a alternativa com o trecho-base pelo encadeamento lógico: a segunda oração decorre da primeira ou apenas se soma a ela?
  • Elimine opções em que o “e” exprime finalidade, contraste, enumeração ou reforço enfático, se o modelo do texto indicar consequência contextual.

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Comentários

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D) Correta. O "e" introduz uma oração que explica ou justifica a característica anterior: era gananciosae, por isso, não queria gastar dinheiro. Assim como no texto, a segunda oração decorre da primeira, conferindo ao "e" um valor semântico que vai além da simples adição.

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