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Q720291 Português

                                                O lixo é nosso

    Cena comum nas cidades: engolfado no trânsito, e também obstruindo-o, um homem, uma formiga, puxa com enorme esforço pedaços do caos. É o carroceiro.

   Paciência, motorista, com o pobre carroceiro. Cala a tua buzina irritada, que o homem que ali vai, puxando sua carga enorme e desequilibrada, trabalha para o nosso bem. Não é muito o que ele pode fazer, ele não é mais do que uma formiga na paisagem, um nada, mas faz sua parte mínima com a força e a teimosia das formigas. Leva restos que espalhamos pelos caminhos.

    Não o apresses, ele não consegue ir mais depressa. Não é ele que vai devagar, somos nós, o país. O atraso é nosso.

    O homem da carroça, o burro sem rabo, caro motorista, está ali por um conjunto de circunstâncias: para ele existir, tem de haver pobreza, tem de faltar trabalho, tem de sobrar lixo nas ruas, tem de faltar educação, respeito, cidadania, planejamento administrativo, consciência do bem comum.

    Considera que ele nas ruas é mais “verde” – mais limpo – do que nós: o carro dele não emite gazes, não buzina, ele não é um consumidor de artigos descartáveis, não produz esse lixo, antes o leva para reciclagem. Vê que curiosa contradição: ele é uma pecinha na grande engrenagem do avanço, a reciclagem, enquanto nós, participantes da poderosa cadeia de consumo, modernos, temos um pé nos séculos passados, ligados à descuidada atitude que formou a sociedade atual – pegar, usar e largar.


(Adaptado de Ivan Ângelo. Certos homens. Porto Alegre: Arquipélago, 2011. p.167-9)

A contradição a que se refere o autor no último parágrafo surge a partir de
Alternativas

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: A resolução depende da inversão semântica explicitada no último parágrafo: "Vê que curiosa contradição: ele é uma pecinha na grande engrenagem do avanço, a reciclagem, enquanto nós, participantes da poderosa cadeia de consumo, modernos, temos um pé nos séculos passados, ligados à descuidada atitude que formou a sociedade atual – pegar, usar e largar." Como o texto opõe o carroceiro ao progresso e os modernos ao passado, a alternativa correta é a que reconhece essa inversão.

Tema central: inversão atraso/progresso
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque fala em ocultação das marcas de atraso do carroceiro, e o texto não faz isso. Ao contrário, reconhece explicitamente as circunstâncias de pobreza, falta de trabalho e ausência de cidadania. O que ocorre no final é ressignificação por contraste, não apagamento dessas características.
B
Errada
Está errada porque transforma a contradição em embaralhamento ou equivalência entre avanço e atraso. O texto não diz que os dois passam a significar a mesma coisa; eles continuam opostos. O que muda é quem passa a ser associado a cada polo.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reproduz o mecanismo de sentido construído pelo autor: o carroceiro, figura normalmente associada ao atraso social, aparece como elemento progressista por estar ligado à reciclagem e por ser "mais “verde” – mais limpo – do que nós"; já "nós", apresentados como modernos e inseridos na cadeia de consumo, somos vinculados a uma conduta regressiva, resumida em "pegar, usar e largar". A contradição, portanto, não está em igualar os polos, mas em inverter os referentes habituais de cada polo.
D
Errada
Está errada porque desloca o foco para um suposto equívoco de generalização sobre os motoristas. A contradição indicada pelo autor não é um erro argumentativo sobre todos os motoristas individualmente, mas um contraste discursivo entre o carroceiro e "nós", ligados à cadeia de consumo e ao descarte.
E
Errada
Está errada porque introduz uma ideia que o texto não sustenta: a de que não haveria mais lugar para elementos antiquados. O texto afirma o contrário do ponto de vista funcional, ao mostrar que o carroceiro exerce papel relevante na reciclagem. Além disso, essa alternativa não explica a contradição como inversão entre aparência de atraso e função progressista.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre contradição como erro ou embaralhamento e contradição como inversão de expectativas: o texto não mistura atraso e progresso nem acusa literalmente todos os motoristas, apenas inverte os referentes tradicionalmente associados a cada valor.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado pedir o sentido de uma "contradição", volte ao trecho em que ela é nomeada e identifique quais polos o autor opõe.
  • Verifique se o texto funde os sentidos ou apenas inverte os referentes habituais; aqui, atraso e progresso continuam opostos.
  • Elimine alternativas que troquem o mecanismo textual central por extrapolações sobre grupos sociais ou por teses não ditas no trecho.

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(C)

"Considera que ele nas ruas é mais “verde” – mais limpo – do que nós: o carro dele não emite gazes, não buzina, ele não é um consumidor de artigos descartáveis, não produz esse lixo, antes o leva para reciclagem."

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