São muitos os desafios para melhorar o acesso à saúde no
Brasil, mas, qualquer que seja o caminho, é preciso estruturá-lo
por meio da colaboração de todos os agentes do sistema, desde
os usuários, profissionais de saúde e laboratórios farmacêuticos,
até os gestores de hospitais, operadoras e membros do serviço
público. Afinal, cuidar da vida é um objetivo comum, que demanda colaboração, interesse e envolvimento coletivo.
Um conceito que tem sido bastante discutido como estratégia eficaz para a promoção da saúde é o “triple win”, ou seja,
ganho triplo. Ele significa estabelecer uma relação bem-sucedida entre os três principais elementos do ecossistema de saúde:
o paciente, a indústria farmacêutica e o sistema em si, seja ele
público, na figura do SUS, seja privado, que no Brasil acontece
por meio das operadoras de planos de saúde, sob regulação da
ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).
Mas, para que o “triple win” se torne uma realidade, um
de seus pilares deve estar calcado na prevenção. Precisamos de
um esforço contínuo para melhorar as atuais políticas públicas
em saúde, transformando-as em mecanismos que coloquem o
indivíduo como usuário de um sistema que fortalece as ações
de prevenção e promoção de saúde. É a mudança do modelo de
assistência ao beneficiário passando a ênfase para a saúde e não
para a enfermidade.
Se conseguirmos evoluir para um modelo centrado no paciente, nas suas reais necessidades, valorizando os desfechos que
realmente importam para ele, fica mais fácil conseguirmos alinhar as expectativas de todas as partes interessadas. Sabemos
que, atualmente, a sociedade como um todo se mostra cada vez
mais suscetível a enfermidades. A carga de doenças, novas ou
crônicas, cresce de forma significante. A consequência disso é a
necessidade ainda maior de utilização do sistema de saúde, privado e público. O que aconteceu com a Covid-19 foi uma demonstração do perigo que é ter um sistema sobrecarregado.
Por isso, temos falado também em saúde populacional,
um conceito cujo foco é influenciar determinantes sociais que
afetam desfechos clínicos. Essa ideia se apresenta como outro
caminho possível, intrínseco ao “triple win”, para uma transformação sustentável, com a redução no impacto das doenças
crônicas, queda na utilização inadequada do serviço de saúde e
promoção de melhor qualidade de vida. É uma abordagem
extremamente benéfica ao paciente, pois o coloca no centro
das tomadas de decisão, vantajosa para o poder público, que
consegue reduzir índices de doenças, e lucrativa para a indústria, que se beneficia com a introdução de um medicamento
com rapidez e escala.
Não é nenhuma novidade, mas precisamos reforçar: a Atenção Primária à Saúde é dever de todos que desejam construir um
modelo mais colaborativo. A sociedade precisa entender como
funciona a jornada do paciente, o que é o SUS e que ele vai além
do pronto-socorro, do hospital e das vacinas. Para isso, é necessário reduzir barreiras e promover o diálogo e a cooperação, ou seja,
nova forma de concorrência colaborativa. [...]
(PAULO REBELLO – Diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde