Sobre a narrativa é CORRETO afirmar que

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Q950536 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


As caridades odiosas


    Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchava na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura. Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.

    ― Um doce, moça, compre um doce para mim.

    Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água. Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.

    De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: – Que doce você...

    Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.

    ― Que outro doce você quer? Perguntei ao menino escuro.

    Este, que mexendo as mãos e a boca ainda espera com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com uma delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.

    ― Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los... E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:

    ― Afinal uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas, mas ninguém quis dar.

    Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de... E para isso foi necessário que outros não lhe tivessem dado doce.

Clarice Lispector

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Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de texto literário, com ênfase na identificação de elementos estruturais da narrativa (personagens, espaço, tempo e narrador).

Justificativa para a alternativa correta (D):

A alternativa D) “Tem três personagens” está correta porque, conforme a estrutura clássica da narrativa, destacam-se três personagens principais:

Narradora: protagonista que relata a história em primeira pessoa, evidenciando suas emoções e reflexões.
Menino: personagem que pede o doce, movendo o enredo e provocando a transformação interna da narradora.
Caixeira: funcionária da confeitaria, que interage e observa a cena, completando o núcleo de personagens ativos no texto.

De acordo com Cunha & Cintra e Bechara, a identificação dos personagens principais se dá por sua participação ativa no desenrolar dos fatos narrados e sua relevância para o conflito central.

Análise das alternativas incorretas:

A) O tempo psicológico se manifesta por reflexões, mas a narrativa segue uma sequência cronológica clara (uma tarde específica, ações encadeadas), portanto, predomina o tempo cronológico.
B) O texto é narrado em primeira pessoa, por quem vivencia a história (narrador-personagem), e não por um observador externo.
C) Há marcadores explícitos de tempo (“Foi uma tarde...”) e espaço (“na rua”, “confeitaria”), que situam a ação.
E) O desfecho não acontece apenas com a saída do menino, mas no momento de reflexão da narradora sobre o ocorrido (sentimentos de vergonha, amor e gratidão).

Estratégias para futuras questões: Busque, ao interpretar narrativas, identificar claramente cada personagem ativo, os marcos de tempo e espaço, e o ponto de vista do narrador. Atenção a detalhes descritivos e funções que cada personagem exerce na ação narrada.

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Comentários

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A moça, o menino e a caixeira! :D

vim aqui só para comentar como esse texto de Clarice Lispector é perfeito.

por algum instante poderia vacilar e achar que os presentes sentados estariam como personagens, mas não houve nenhuma ação ou reação do "possível conhecido dela".

logo 03 personagens..

SEMPRE! SEMPRE OS TEXTOS DESSA MULHER ENCANTAM, NAO PRECISA SER FÃ.APENAS LEIA E VERÁ

O narrador observador, assim como o narrador personagem, é centrado no foco narrativo em 1ª pessoa do discurso. Distingui-se do narrador personagem, pois o narrador observador participa da história não como um personagem protagonista, mas como um coadjuvante que vê o que narra, mas sem ser o centro do enredo.

https://mundoeducacao.uol.com.br/literatura/tipos-de-narrador.htm

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