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Sêneca lança mão da figura de linguagem denominada antítese ...

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Q4231733 Português
Atenção: Considere o texto do filósofo latino Sêneca para responder à questão. 


    A vida divide-se em três períodos: o que se foi, o que está sendo e o que há de vir. Desses, o que estamos atravessando é breve, o que havemos de atravessar é duvidoso, o que já atravessamos é certo. É este último de fato aquele sobre o qual a fortuna perdeu seu direito, o qual não pode ser reconduzido ao arbítrio de ninguém. Esse período os ocupados o perdem, pois não lhes sobra tempo para examinar o passado, e, se lhes sobrasse, seria desagradável a recordação de algo que lhes causaria arrependimento. Ninguém voltará de bom grado seu olhar ao passado, exceto quem submete todos os seus atos à própria censura, que nunca se deixa enganar. Quem avidamente muito cobiçou, desprezou com soberba, venceu com insolência, enganou com insídias, roubou por cupidez, prodigamente dissipou, é forçoso que tema a própria memória. Ora, essa é a parte sagrada e intocável de nosso tempo, posta acima de todos os reveses humanos, subtraída ao reino da Fortuna, e que nem a penúria, nem o medo, nem o ataque de doenças podem atingir. Ela não pode ser conturbada nem tirada: a posse dela é perpétua e sem receios. Somente um a um os dias se mostram presentes para nós, e ainda fracionados em momentos. Porém, todos os dias do passado, tão logo ordenares, estarão diante de ti, a teu arbítrio irão deixar-se examinar detidamente; isso os ocupados não têm tempo de fazer. É próprio de uma mente segura e tranquila percorrer todos os períodos de sua vida; as almas dos ocupados, como se estivessem atadas sob o jugo, não podem virar-se e olhar para trás. Portanto, a vida deles desaparece num abismo e, tal como de nada adianta verter líquido até a borda de um recipiente, se embaixo não há fundo que o receba e conserve, assim também não importa quanto tempo nos é concedido, se não há lugar onde ele possa depositar-se, se ele vaza por trincas e perfurações de nossas almas.


(Adaptado de: Sêneca. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2017, p.21-22)
Sêneca lança mão da figura de linguagem denominada antítese no seguinte trecho: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: A antítese se reconhece pela aproximação de ideias semanticamente opostas. No trecho "o que havemos de atravessar é duvidoso, o que já atravessamos é certo.", a oposição entre futuro/incerteza e passado/certeza é o elemento decisivo que confirma a alternativa E.

Tema central: identificação de antítese
Análise das alternativas
A
Errada
O trecho apenas caracteriza "uma mente segura e tranquila" e afirma sua capacidade de percorrer os períodos da própria vida. Há descrição de estado e de faculdade, mas não há aproximação de ideias opostas ou contraste semântico efetivo no enunciado.
B
Errada
O segmento expressa impossibilidade de ação das "almas dos ocupados". A formulação "virar-se e olhar para trás" constrói uma imagem ligada ao passado, mas não há confronto entre sentidos opostos; falta o contraste semântico necessário à antítese.
C
Errada
O trecho faz referência temporal simples ao presente: os dias se mostram "presentes para nós". Não há oposição entre segmentos nem contraste semântico efetivo que configure antítese.
D
Errada
O enunciado associa "recordação" e "arrependimento" dentro de um mesmo campo semântico negativo. Esses elementos não se opõem; ao contrário, a recordação é apresentada como desagradável justamente por causar arrependimento, sem oposição de sentidos.
E
Certa
A alternativa E se sustenta porque reúne, no mesmo segmento, ideias contrastantes: de um lado, "o que havemos de atravessar", ligado ao que ainda será vivido; de outro, "o que já atravessamos", ligado ao que já foi vivido. Essa oposição temporal vem intensificada pela oposição semântica entre "duvidoso" e "certo". É essa construção contrastiva que configura a antítese.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre simples menção ao tempo ou uso de imagem expressiva e antítese. A figura não surge porque o trecho fala de passado, presente ou futuro, mas porque há contraste efetivo de sentidos, como em "duvidoso" x "certo" na alternativa E.
Dica para questões semelhantes
  • Procure no trecho um par de ideias efetivamente contrastantes, e não apenas uma referência temporal ou descritiva.
  • Confirme a antítese por oposição semântica explícita entre termos ou segmentos do enunciado.
  • Não trate imagem metafórica, por si só, como antítese; a figura exige confronto de sentidos.
  • Se houver menção a tempos da vida, verifique se o texto apenas enumera ou se realmente contrapõe esses tempos com valores opostos.

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Comentários

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Antítese é uma figura de linguagem (ou figura de pensamento) que consiste na aproximação de palavras ou ideias com sentidos opostos em um mesmo enunciado, como "triste e feliz" ou "luz e escuridão", para dar mais força e destaque ao que se quer comunicar.

Antítese oposição

Paradoxo contradição aparente

Ironia dizer algo querendo sugerir outro sentido

Metáfora comparação implícita

Comparação comparação explícita, geralmente com "como"

Hipérbole exagero

Eufemismo suavização

Personificação característica humana a algo não humano

Letra E.

Antítese = aproximação de palavras ou ideias contrárias.

Ex.: vida × morte, passado × futuro, certo × duvidoso, amor × ódio.

Lança mão= faz uso

  • O que havemos de atravessar (Futuro) \ O que já atravessamos (Passado)
  • Duvidoso (Incerteza) \ Certo (Segurança)

O autor usa essa oposição exata de palavras e conceitos para reforçar o impacto psicológico da mensagem: o peso visual do desconhecido contra o peso real daquilo que já se viveu.

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