A partir da leitura do texto, acerca das características de ...
O texto | serve de base para as questões de 1 a 5.
TEXTO |
Um homem de consciência
Chamava-se Jodo Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos queriam: mudar-se para terra melhor. Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.
— Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons — agora só um, e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
João Teodoro entrou a incubar a ideia de também mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
— E isso! — Deliberou lá por dentro. — Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada de nada, então eu arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada... .
Ser delegado numa cidadezinha daquelas é coisa seríssima. Não há cargo mais importante. E o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!
João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas.
Pela madrugada, botou-as num burro, montou no seu cavalinho magro e partiu.
Antes de deixar a cidade, foi visto por um amigo madrugador.
— Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
— E Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
— Mas como? Agora que você está delegado?
— Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado, eu não moro. Adeus. sumiu.
LOBATO, Monteiro. Cidades Mortas.12. ed. São Paulo: Editora Brasiliense,1965.
A partir da leitura do texto, acerca das características de seu protagonista, é correto afirmar que João Teodoro:
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de texto e semântica, ambos fundamentais em provas de concursos para o cargo de Bibliotecário. Essa questão exige que o candidato identifique, de forma crítica, as características psicológicas e comportamentais do personagem João Teodoro, conforme descrito no conto de Monteiro Lobato.
Justificativa da alternativa correta (A):
A alternativa A é correta porque, segundo o texto, João Teodoro era descrito explicitamente como “o mais pacato e modesto dos homens” e, principalmente, “não dar o mínimo valor a si próprio”. Essas expressões evidenciam, pelo sentido semântico, uma postura humilde e autodepreciativa. Ao recusar o cargo de delegado e considerar este fato como prova de decadência da cidade, ele reafirma a ideia de que se subestima em relação aos demais. Como ensina Bechara ("Moderno Dicionário de Língua Portuguesa"), ‘modesto’ e ‘pacato’ definem quem tem baixa autoimagem e evita sobrevalorização pessoal.
Análise das alternativas incorretas:
B) Incorreta, pois não há qualquer menção a autoritarismo: João Teodoro recusa o cargo por não se considerar apto, não por criticar a função. Estratégia: desconfie de explicações não presentes ou sugeridas no texto.
C) Incorreta, pois “se superestimar” (valorizar-se em excesso) é o oposto da característica central apresentada: João Teodoro se subestima, demonstra baixa autoestima.
D) Errada. Altruísmo é dedicar-se mais ao outro que a si mesmo, mas o texto não menciona ações benéficas ao próximo; o fato de não dar valor a si mesmo não implica altruísmo (Bechara, semântica).
E) Inválida porque o personagem reage à nomeação sentindo-se impactado (“como se fosse uma porretada no crânio”), não indiferente.
Estratégias: Atenção a palavras-chaves (“modesto”, “não dar o mínimo valor”), adjetivos qualificadores e interpretação contextual. Evite respostas que ampliem indevidamente o sentido do texto ou proponham causas não mencionadas.
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