Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo,
quando Bom-Crioulo, então simplesmente Amaro, veio,
ninguém sabe donde, metido em roupas d’algodãozinho,
trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e
alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos),
ignorando as dificuldades _________ passa todo homem
de cor em um meio escravocrata e profundamente
superficial como era a Corte —ingênuo e resoluto, abalou
sem ao menos pensar nas consequências da fuga. Nesse
tempo o “negro fugido” aterrava as populações de um
modo fantástico. Dava-se caça ao escravo como aos
animais, de espora e garrucha, mato a dentro, saltando
precipícios, atravessando rios a nado, galgando
montanhas... Logo que o fato era denunciado — aqui-del-rei! — enchiam-se as florestas de tropel, saíam estafetas
pelo sertão num clamor estranho, medindo pegadas,
açulando cães, rompendo cafezais. Até fechavam-se as
portas, com medo... Jornais traziam na terceira página a
figura de um “moleque” em fuga, trouxa ao ombro, e, por
baixo, o anúncio, quase sempre em tipo cheio, minucioso,
explícito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade,
lesões, vícios, e outros característicos do fugitivo. Além
disso, o “proprietário” gratificava generosamente a quem
prendesse o escravo. Autor: Adolfo Caminha. Trecho
extraído da obra O Bom-Crioulo.
Qual era o papel dos jornais na época da escravidão,
de acordo com o texto?