Assinale a afirmativa CORRETA:

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3700459 Português

Para responder à questão, leia o texto a seguir: 


Variação e mudança


Sírio Possenti


A maioria absoluta dos brasileiros ̶ talvez não só os brasileiros ̶ alfabetizados ou letrados tem uma ideia completamente equivocada do que seja uma língua. Para eles, língua é a que a escola ensina, ou o que está nos manuais do tipo "não erre mais". O resto é erro. Todos consideram que as variantes são erros.


Ocorre que o que a escola ensina também é mais ou menos variado. E depende muito também do desempenho linguístico dos professores. Como eles são membros da sociedade, são afetados pelas mudanças que a língua sofre com o correr do tempo, de forma que seu "português" é, de alguma forma, o português de seu tempo. O que não é necessariamente ruim.


Isto quer dizer que o português que os professores falam e mesmo o que escrevem não é necessariamente o português dos livros adotados nas escolas. O que vale para professores de português vale também para os das outras disciplinas, claro. E vale também para os jornalistas e para as personalidades que eles entrevistam, tenham elas a formação que tiverem (em geral, são especialistas em alguma coisa, sempre especialistas). É só ouvir os debates ou os programas de entrevistas para verificar isso.


Dou dois exemplos banais. Duvido que haja 10% de professores ou falantes letrados que profiram o dito futuro (aplicarei minha poupança em ações da empresa X). Todos dizem "vou aplicar". Outro exemplo? Quase ninguém diz "nós". Diz-se "a gente". Como pouco se diz "tu", exceto em algumas regiões, a conjugação verbal do futuro é


Eu vou aplicar


Você vai aplicar


Ele/ela vai aplicar


A gente vai aplicar


Vocês vão aplicar


Eles/elas vão aplicar.


Ou não é? Quem não fala assim que atire a primeira pedra. Não vou dizer (!!) que todos falam sempre assim porque sei que uma língua sempre apresenta variação. Alguns entrevistados, ou jornalistas, dirão (!!), talvez, de vez em quando, no meio da conversa, "falaremos disso na próxima entrevista", claro, sendo mais formais. Em compensação, alguns também dirão "vamo falá disso na próxima veiz", sendo bem mais informais. E ninguém nota que falou errado durante a entrevista. Por quê? Porque ninguém fala errado mesmo! Isso não é erro. Esse é o português falado culto do Brasil hoje. É um fato. Só isso.


Numa certa ocasião, fui entrevistado por uma emissora de TV (eu no estúdio e um folclorista em outra cidade). Argumentava que a linguagem popular não tinha nada de errado, era só diferente, e era enfrentado pela apresentadora que "defendia nossa língua". Para dobrá-la, só me restou um recurso: ficar atento ao que ela dizia e citar os "erros" que ela ia cometendo, segundo os próprios critérios dela. Ficou meio sem jeito, e eu tive que insistir que ela falava corretamente... o português real (e que aquele que ela defendia não existe mais, pelo menos na fala).


O que muita gente não entende ̶ ou não quer entender, porque significaria perder uma boa teta! ̶ é que a variação tem tudo a ver com a mudança. Todos acham normal que aquila tenha derivado para águia, que asinus tenha derivado para asno (tem muita coisa mudada aí, mas o básico é que a palavra latina proparoxítona se torna paroxítona), mas acham ridículas formas como fosfro (para fósforo), corgo (para córrego), xicra e chacra (para xícara e chácara), embora a regra antiga que explica a mudança e a atual que explica a variação sejam a rigor a mesma (os falantes seguem regras, não erram!!!), sem contar que dizem, numa boa, sem se dar conta do que fazem, xicrinha e chacrinha. Quá!


Variação tem tudo a ver com mudança. Mas, se entendêssemos isso, muita gente perderia uma grana preta!! 


Fonte: http://www.cataphora.com.br/2010/03/variacao-e-mudanca-sirio-possenti_8437.html (Acesso em: 25 set. 2024).

Assinale a afirmativa CORRETA:

Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: A questão avalia morfologia e fonologia, especificamente a identificação de processos de alteração fonética denominados metaplasmos, com foco na síncope – a supressão de som no interior de palavras.

Justificativa da alternativa correta (A): Metaplasmo é, segundo a gramática tradicional (Cunha & Cintra; Bechara), a modificação da estrutura de uma palavra por mudança, acréscimo ou supressão de fonemas. Síncope é um tipo de metaplasmo em que ocorre a eliminação de um fonema no meio da palavra. Isso é exatamente o que se verifica nos exemplos citados: “fosfro” (fósforo), “corgo” (córrego), “xicra” (xícara), “chacra” (chácara), onde uma sílaba ou fonema interno é suprimido, modificando inclusive a tonicidade das palavras, que geralmente transitam de proparoxítonas para paroxítonas. Como reforça Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), essa é uma ocorrência natural na evolução e variação linguística.

Análise das alternativas incorretas:

B) Afirma incorretamente que há variação fonética/fonológica ao se trocar “nós” por “a gente”. Na verdade, trata-se de variação morfossintática: troca de um pronome pessoal pelo pronome de tratamento informal, sem alteração estrutural de sons, diferentemente do uso de “nóis”, aí sim um fenômeno fonético.

C) Diz que o uso de “a gente” para “nós” traz complicação ao sistema pronominal. Esse argumento não se sustenta: o sistema permanece funcional e inteligível para o falante. A mudança interfere apenas na concordância verbal, pois “a gente” exige verbo na 3ª pessoa singular – e isso não constitui complicação sistêmica, mas adequação ao registro.

D) Classifica o uso do “vai aplicar” como pouco aceito, quando, conforme aponta o texto e atesta a própria gramática de uso, é largamente aceito nos usos formais e informais. A construção analítica com “ir + infinitivo” é o futuro do presente mais frequente no português brasileiro falado, conforme ensina Mattoso Câmara Jr. e atesta o uso registrado por Bechara.

Estratégias para concursos: Ao encontrar termos técnicos (síncope, metaplasmo), destaque palavras-chave no enunciado e valide os conceitos em gramáticas de referência. Atenção a pegadinhas que sugerem mudança de categoria da variação (fonética × morfossintática).

Resumo: A alternativa A está correta porque descreve com precisão o fenômeno fonético-morfológico ocorrido nos exemplos, conforme a norma culta e a tradição gramatical.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gloria a Deus!!! Ele nos fortalece.

pmmg2026

síncope: síncope é um fenômeno linguístico (especificamente um metaplasmo de supressão) que consiste na perda de um ou mais sons no meio de uma palavra.

Esse processo pode ser histórico (ajudou a formar a língua que falamos hoje) ou coloquial (comum na fala atual).

1. Síncope Histórica (Evolução do Idioma)

Muitas palavras que usamos hoje são versões "encurtadas" do latim ou do português arcaico através da síncope. Sem ela, o português seria muito mais parecido com o latim.

Patre (latim) \rightarrow Pai (perda do "t" central)

Generu (latim) \rightarrow Gênero \rightarrow Genro (perda da vogal interna)

Periculu (latim) \rightarrow Periglo \rightarrow Perigo

Populu (latim) \rightarrow Povo

2. Síncope Coloquial (Fala Popular)

Na fala cotidiana, é comum "comermos" sons centrais para agilizar a comunicação. Embora frequente, esse uso costuma ser evitado em contextos formais.

Abóbora \rightarrow Abobra

Xícara \rightarrow Xicra

Árvore \rightarrow Arvre

Você \rightarrow Cê (embora o "vo" seja o início, o "v" central de formas como "vosmecê" também sumiu no processo)

3. Diferença de outros processos

Para não confundir, lembre-se da posição da perda do som:

Aférese: Perda no início (ex: tá em vez de está).

Síncope: Perda no meio (ex: pra em vez de para).

Apócope: Perda no fim (ex: pote em vez de poder - comum em Portugal).

Nota: A síncope é uma das principais responsáveis por transformar palavras proparoxítonas (como pérola) em paroxítonas (como perla), seguindo a tendência natural da língua de buscar uma pronúncia mais econômica e fluida.

Em 16/02/26 às 21:24, você respondeu a opção C.

!Em 04/02/26 às 15:11, você respondeu a opção C.

Ao meu ver questão esta mal formulada, se ocorre de fato a sincope o certo seria estar : Em fósforo (para ‘fosfro), córrego (para corgo).... ja que consiste na perda de um ou mais sons no meio de uma palavra.

Pertenceremos a PM-MG

Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens

ECLESIASTES 9`10

#Tropa oba @pm minas

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo