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A era da atenção fragmentada


    A economia digital transformou a atenção em um dos ativos mais valiosos do mundo contemporâneo. Plataformas digitais, redes sociais e aplicativos foram projetados para manter usuários engajados o maior tempo possível através dos princípios da economia da atenção, isto é, não apenas capturando atenção, mas aprendendo continuamente como sustentá-la.


    Como consequência, milhões de pessoas passaram a alternar constantemente entre mensagens, notificações, vídeos, e-mails e múltiplas tarefas simultâneas. O resultado é um cérebro submetido a fragmentação contínua da atenção.


    A concentração profunda tornou-se mais difícil. O silêncio mental tornou-se raro. E o cansaço cognitivo passou a fazer parte da rotina de muitas pessoas. O cérebro humano não foi desenvolvido para permanecer tantas horas por dia exposto a estímulos rápidos, variáveis e ininterruptos. Ansiedade, irritabilidade, fadiga mental, dificuldade de foco e sensação constante de esgotamento passaram a aparecer cada vez mais cedo, inclusive, entre adolescentes e jovens adultos.


    A hiperconectividade também dissolveu fronteiras entre vida pessoal e trabalho. Em muitos ambientes profissionais, estar disponível o tempo todo deixou de ser exceção e passou a funcionar como expectativa silenciosa.


    Mensagens chegam fora do expediente, reuniões ocupam espaços antes destinados ao descanso e a sensação de urgência tornou-se permanente. Mesmo nos momentos de pausa, muitas pessoas continuam emocionalmente conectadas ao trabalho. Não é à toa, assim, que o burnout nas empresas cresceu 823% em quatro anos.


    Esse padrão impede períodos reais de recuperação psíquica. O corpo pode até parar, mas a mente permanece em estado de alerta mesmo aos finais de semana. Com o tempo, essa dinâmica favorece exaustão emocional, queda de produtividade, dificuldade de concentração e sintomas associados ao burnout.


    A mente humana precisa de intervalos para organizar experiências, elaborar emoções e recuperar energia psíquica. Sem pausas, o cérebro permanece em funcionamento contínuo. O Brasil ocupa atualmente o terceiro lugar mundial em tempo de exposição às telas digitais. Em média, cada brasileiro passa 9h15min por dia conectado, o equivalente a quase 140 dias inteiros do ano vivendo diante de telas.


    A tecnologia, por si só, não é a inimiga. Ferramentas digitais também oferecem benefícios importantes: acesso ampliado à informação, atendimento psicológico on-line, redes de apoio, flexibilização do trabalho e recursos voltados ao bem-estar emocional. O desafio contemporâneo não é abandonar a tecnologia, mas aprender a construir uma relação mais saudável com ela.


    As plataformas continuarão disputando nossa atenção. Mas nenhuma sociedade permanece emocionalmente saudável quando perde a capacidade de silêncio, profundidade e presença.


(Por Cristiano Nabuco. Disponível em: https://www.saude.abril.com.br/coluna/com-a-palavra. Acesso junho de 2026. Fragmento.)

Ao confrontar a afirmação de que “O resultado é um cérebro submetido a fragmentação contínua da atenção” (2º§) com a ressalva de que “A tecnologia, por si só, não é a inimiga” (8º§), o autor estabelece a seguinte relação lógica no desenvolvimento do texto:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: Na ressalva “A tecnologia, por si só, não é a inimiga.”, a expressão “por si só” restringe a atribuição de nocividade à tecnologia. Esse critério afasta a condenação intrínseca e sustenta o contraste formulado em D.

Tema central: Ressalva e contraste textual
Análise das alternativas
A
Errada
A afirmação de que a tecnologia é essencialmente nociva contradiz a ressalva “A tecnologia, por si só, não é a inimiga.” Além disso, o autor reconhece “benefícios importantes”, sem classificá-los como aparentes ou superficiais.
B
Errada
A alternativa acrescenta a irreversibilidade dos danos, que não é afirmada no texto. Também contraria a orientação “O desafio contemporâneo não é abandonar a tecnologia, mas aprender a construir uma relação mais saudável com ela.”, incompatível com a alegação de que qualquer tentativa de equilíbrio seria inviável.
C
Errada
Confunde consequência com finalidade. O propósito atribuído às plataformas é “manter usuários engajados o maior tempo possível”; a fragmentação da atenção, introduzida por “O resultado é”, aparece como consequência dessa dinâmica. O texto não afirma que as ferramentas foram criadas para esgotar o usuário.
D
Certa
A alternativa D preserva os dois lados da argumentação: a exposição prolongada a estímulos ininterruptos prejudica a atenção, mas as ferramentas digitais também oferecem benefícios importantes. Nesse contexto, “neutralidade” significa ausência de nocividade intrínseca, não ausência de interesses ou de estratégias de captura da atenção. A proposta de construir uma relação mais saudável com a tecnologia confirma que a crítica recai sobre a dinâmica de uso, sem exigir seu abandono.
Pegadinha da questão
Confundir a crítica à hiperconectividade com uma condenação de toda tecnologia. Em D, “neutralidade” deve ser lida como ausência de nocividade intrínseca, e não como ausência de estratégias destinadas a capturar e sustentar a atenção.
Dica para questões semelhantes
  • Observe expressões restritivas como “por si só”: elas delimitam o alcance de uma crítica e podem impedir uma interpretação absoluta.
  • Diferencie finalidade declarada de consequência: manter o usuário engajado é o propósito mencionado; fragmentação e esgotamento são efeitos apresentados.
  • Confronte afirmações absolutas, como irreversibilidade ou impossibilidade de equilíbrio, com as propostas efetivamente defendidas pelo texto.

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